quinta-feira, 28 de setembro de 2017

PENALIDADE MÁXIMA (Armando Freitas Filho)

Belo, Bruno, bronzeado pela cor e pelo sol ardente 
com mais de um metro e noventa e mãos que agarram
impassível, com o olhar parado das estátuas frígidas
dos ídolos indolores, encara, sem expressão, o batedor
o tiro, à queima-roupa, indefensável, que o irá fulminar.
Em cima da linha fatal, não pisca, não move um músculo
não sente sequer sua metamorfose, que se não chega à pele
o desossa por dentro, e depois o esvazia de suas entranhas
expostas, cruas, para consumo de todos, e o horror fedorento
das suas carnes, devoradas sem nenhuma temperança
ou anestesia. Mas a dor ainda não chegou apesar do crime
começar a pesar atrás dos olhos, cada vez mais mortiços
dos ombros caídos desde nascença, mas só agora percebidos.
Direto no computador para não sujar as mãos, me entrego
intoxicado pelo mal que a divindade descrita acima exala:
suor de atleta, mistura de glória e grama, se evapora rápido
ou desanda no suor cúmplice e acre, sem auréola, dos asseclas
em sítio de fachada impecável que esconde a casa carcomida
incompleta, de tijolos aparentes, ilhada por metralhadora e
mastins.
Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.

sábado, 30 de julho de 2016

A Morte do Leiteiro - Carlos Drummond de Andrade



Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…

Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.

E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico.
ladrões infestam o bairro,
não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.

Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom?
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.

Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.

Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro,
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei

Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

:'( Carlos Drummond de Andrade


Deixe o ciclo das águas

Chegando no condomínio fui pegar a chave de casa no Raul e ele gritou algo que não entendi.
Estavam amigos dele que cumprimentei rapidamente enquanto Maria me ligava para levar alguma coisa.
Raul precisou repetir umas 5 vezes até eu entender que ele havia deixado um quadro para a Maria.
Disse "ok" sem entender e desci.
Peguei no carro o que Maria pedira e
Quando cheguei em casa, antes de entrar vi um quadro ao lado da porta.
Entendi o recado do Raul!
O quadro era antigo, com cara de que foi pintado mais de uma vez. Com cara de quem já esquecera pelo menos uma história.
Mas estava virado pra parede.
Peguei pra ver, era o quadro do Raul para a Isabella.
Melhor, a pintura que ele fez para a Isabella anos atrás.
Mas no quadro ela estava com a cara virada para a parede.
Aquela pintura que já vira tantos cômodos agora não olhava para nada.
Olhava para mim, era o fim e eu o testemunhara sem reação.
Sem graça, um pouco tenso.
Como quem segura sem jeito uma panela cheia de água fervendo.
A pintura tão colorida me olhava dando sinais de morte.
Como quem estivesse pronta para seguir outra via.

Estava virada para a parede.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

.

ouvir
o vir
da nu-
vem:

serena sereia
uivando ao vento:
anunciante do alto mar aporta
a cidade, convida ao lindo naufrágio
quem quer que perceba.

mas aqui não há quem note:
o horário encolheu
o whatsapp vibra no bolso
o facebook urge
o trânsito abafa seu canto
o trabalho suga suas horas
se acaba a bateria
é preciso chegar em casa

e a rota é uma só,
cumprida quase sem perceber,
a sereia nao vai mudar.

ela canta, canta nua
sobre sua nuvem
negra

derruba uma,
duas, três
árvores e postes
até acabar com a luz.

fico a
olhar o
molhar da
mulher

d’água.

Matheus Marins

domingo, 3 de janeiro de 2016

elogio à preguiça

pra um sorriso novo acordar com o domingo,
curva brotar dentro dos seus olhos,
que seja turquesa esse desatino embalado com carinho
blindada de beijo nossa embolada coroa de bocejo

na nossa casa, plano de vôo
aeroplano de cor
celular em modo avião pra decolar o amor
(encher de-cor-o-lar)

notas de música, de café, cafuné
constelação de flores
nos campos celestes
das suas mãos nas minhas

pra um sorriso novo amanhecer músculos
há um quarto de século dormidos.


Matheus Marins

sábado, 2 de janeiro de 2016

reflexões de 7a.m.

Nós sempre estamos mudando, mas sempre esquecendo que as outras pessoas estão mudando também. Elas se tornam o nosso elo com o passado, com o que a gente foi.
As julgamos pelo que já foram sob a égide de quem fomos, mas com os olhos de alguém em versão atualizada.
E passam-se anos de resoluções de réveillon que às vezes cumprimos...
Dias de aprender cada coisa de uma vez.

02/01/201...6!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

onde nasce a inspiração nº2

Falta-me pulmão, ou ar, ou mãos pra segurar essa saudade.

onde nasce a inspiração


...E despertou-lhe um sorriso que acordou músculos inéditos que beiravam um quarto de século em sono profundo...

(ou fez acordar)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Poema em linha reta - Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Cafuné

Flutuo por vagas horas,
cerúleo no marejar dos seus dias.
Amante dos mares, foi no varrer dos meus remos
que desaguei nos seus braços.

Me pegou pela mão, alto-mar
me pegou pelo pé,
deixou vestígios azul-turquesa;

Me trouxe na cama café, alto-mar
me deixou acordado
até de manhã.

Mergulhador de suas horas,
anoiteço com fogo
pra te acalentar, alto-mar.

Dada a sorte do marejar dos nossos dias,
te fiz Netuno, alto-mar
te declamei capitã
do meu navio pirata.

Traga a lua, meia-luz inteira,
ventura marítima aos que navegam
e a luz coada das estrelas,
fino prumo a desatinos tão belos.


Da pacatez do meu barquejo,
com amor pra navegar:
Matheus Marins, em 09/12/2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Onde eu parei?

Hiato sem sílaba.
Uma vogal me puxa pela perna de noite na pista e dança
- Não vai me ligar?
Desengasga um verbo.
E volta a mexer o celular só pelo bloco de notas.

Se preocupa em se despreocupar
se os outros vão gostar, é problema dos outros
é problema seu o que você vai colocar pra fora.
é problema seu o que você vai colocar pra dentro.
o que você colocar pra fora é problema do que você colocar pra dentro.

é salutar, me disseram, se alimentar não só de alimentos bons, mas sentimentos também.
evitar indigestos pra si, pra outrem.
pra ontem o que é de ontem.
=)

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Estive há alguns meses sem postar aqui no blog - sem sequer escrever. Deixar a escrita de lado foi um trabalho árduo. Nos primeiros meses, não teve sequer um dia em que eu não lembrasse, não sentisse falta e, findo o expediente de coisas quaisqueres que eu fazia, não me sentisse irrealizado por não haver impresso minhas ideias, visões e sensibilidades cotidianas em letras ou formas.
Aos poucos, bem aos poucos, fui aceitando meu tempo. E conforme mais aceitava, mais ia sentindo que eu poderia até ficar bem efetuando outras funções (no caso, música, produção cultural), mas nada se compara à graça da expressão escrita. Tenho experimentado a pintura (menos do que eu gostaria) e tenho encontrado nela muito interesse também. Quem sabe um dia eu mude de ideia quanto à escrita, mas enquanto é isso, escrever pra mim nunca será uma opção. Sigo catoblepas.
O dicionário online e o endereço do blog saíram da memória do navegador.
E depois de mergulhos outros, volto sem saber onde parei, e sem ver-me perdido. Como se estivesse ficado fora por uma semana. Posso começar daqui um ponto novo. E começar outro. E outro.

Matheus Marins

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O homem das horas

Sem esforço nem desejo, subia-lhe aos olhos um calor veranil, fatura de memórias com energia demais. Eram de chuva, de preguiça, de estrada e de tédio. Tédio bom, onde já se viu? Ele viu. Foi feliz quem já viu. O calor de lembrá-lo era tal que seus olhos suavam. Suavam um suor sem querer suar de novo.
E cada gota desse suor caía como caísse ele e suas horas inteiras. O relógio parava pra ver e cada segundo que deixava de passar era arrecadado pela garganta embolada com tanto tempo seco pra contar.
Como se os olhos estivessem magoados por não vê-la num domingo vazio.


Matheus Marins,
março 2015

Cursor

pouco importa o quanto eu tente,
o cursor do mouse acaba encontrando a sua foto.
do meu itinerário de navegação no tão tão imenso mundo web,
a setinha acaba apontando pra sua esquina
queira eu encontrar drogas,
uma torradeira,
ou o clima da semana que vem na cidade de Maceió.


Matheus Marins

quinta-feira, 26 de março de 2015

da janela #5:

. o vento

Corre o vento
lento pra mostrar
que come o tempo sem pressa
as ambições que o homem

engole sem mastigar

quarta-feira, 25 de março de 2015

-





















O espelho da
transpiração do seu olhar

reflete a vida irremediável
que faz parar respiro,
feito avesso de vida,
para voltar mais vida

seu olhar,
gota d'água sem fundo,
fura o caminho encontrado
por dentro da pedra

rota de fuga
para rotinas
perdidas
no meio do caminho,

viajantes olhos,
olhos, de outras paisagens

vigilantes doutores
de mal contados
amores

generosos operários
de mal pagos
salários

olhos, destemidos
num silencio
de caducar a morte
incluso dos mortos

levemente risonhos
porque viram bastante
para acumular
sabedoria de recriança

seu olhar,
terremoto cardíaco,
já visitou os quatro pontos cardeais
e, do Nordeste,
aponta mineira verdade
se o mundo
coubesse nos olhos seus,
penso, em aéreos planos,
que a família Neves, de política,
não passaria do Tancredo.

14/10/14

terça-feira, 3 de março de 2015

quando me levo por fotografias da minha cabeça, a saudade é a presença mais nobre

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

a maior garota do mundo

Sonhei com você
ontem à noite -

com a razão
que os sonhos
tem,
e a licença poética
do meu travesseiro,
que me desculpe
qualquer coisa
mas,
dos meus lençóis,
nem o do Flamengo
acredita mais
quando devaneio que você
tá por aí
e qualquer dia vem

- ou foi agora
de manhãzinha?

Send me the pillow
The one that you dream on
And I'll send you mine

ao som:
The Smiths - Some Girls Are Bigger Than Others

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Final

(em ritmo de narrador de jogo de futebol)

Driblou o zagueiro
Passou a bola pro Pet
Devolve no meio
Recebe na frente

vai
Apontar pro gol
Matheus
Vem o volante na cobertura
quedriiible!

a torcida vai à loucura
Vai arriscar de dentro da área
Saiu o goleiro ficou
No caminho

Agora é só um toquinho
Vai encher o pé!
Olha o pé
Olha o pé
Olha o pé!!!
de papoula indo pro chão

Espatiiifa o vaso de dona Jandira

E agora amigo
Mudas as roseiras e as margaridas

Agora é só correr pro quarto

-
Outubro, 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Rivotril

A linha horizontal da cidade
Parece a linha horizontal do meu cardiograma
Desnivelada de possibilidades
E de relevo previsível
Quanto mais alto
Menos vejo
Mais sinto
Menos relevo
a hora do ônibus
Mais especulo
se alcanço as barcas
sob o compasso do martelo
vizinho
tic sem tac
Com o coração mudo
pra um lugar
de relevo menos agressivo
pra relevar
essa pressa de sempre
ser sempressa