domingo, 26 de dezembro de 2010

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: 'Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu... Sabe porque? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele!

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Passam pássaros e aviões
E no chão os caminhões
Passa o tempo, as estações
Passam andorinhas e verões...

domingo, 12 de dezembro de 2010

“Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótimo pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um Litlle help from my friends, e a platéia ainda aplaude e pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.(…) O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Ta tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Ta limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Brincadeiras

Aos dos outros não, mas seus erros eu perdôo. E brinco te chamando da pessoa mais humana que conheço. Brinco com o que sinto me calando o coração para soltar outro riso bobo de quem não quer briga. Nem saber muito, para evitar dor demais. É assim: você vive tropeçando, mas eu é que caio e me arrebento.
Hoje você vem, sei de cor porque conto os dias. É o sábado da minha semana, mesmo sendo só terça-feira. Você liga avisando, pega o ônibus pelas duas, vai chegar por volta das três e eu ansiosa. Mamãe vai preparar algum bolo pra gente comer, mas só te espero chegar pra descer e ficarmos a sós no portão olhando o mundo que passa, rindo, beijando, beijando muito. Guardo todos os meus pra você, porque minha boca só se completa na sua.
Din-don. Parece que você aperta meu coração junto com aquele botão. Desço, sempre nervosa. Giro a chave e meu estômago já todo virado. Ninguém. Alarme falso? Alguma criança, aposto que foi o Serginho, escondido ali. O susto é tão grande que perco as forças nos seus braços quando te vejo no esconderijo da criança. Você é assim, brincalhão. Brinca até com o que não se deve. Mas me faz feliz.

- Saudade.
- Simm! Muita saudade!
Minhas mãos molhando as suas enquanto conto minhas histórias, você sempre calado. Às vezes penso que não presta atenção. É muito romântico também. Diz as coisas mais lindas e engraçadas. Quando são umas cinco a gente entra e fica atrás do portão sem subir a escada, agora escondidos do mundo.
Nem me dei conta e você colocou a minha mão lá. Agora engasgo de tanto que bate o peito. Bate e você massageia. Ergue-me pelas coxas e fico apoiada entre a parede e o seu corpo tão jovem quanto o meu. A única coisa que você me pede quando liga avisando que vem é que eu vista uma saia. Faço que não entendi mas adoro o pedido. Fico louca que para desfilar todas as minhas fantasias no seu bloco, mas agora estou tão nervosa... A minha primeira vez e também a sua. Vamos chegar lá.
- Natália!
Se eu não cuspi meu coração agora, jamais cuspirei. Quando você já estava quase me penetrando toda apertada-molhada-epa!-, meu pai chama.
Você fica puto, entro em desespero. Será que ele viu? Vai lá. Os dois tensos. Subo, desço, ele no banho queria saber como eu havia acabado com o xampu. Derramou.Que nem a nossa cara.
Você me diz que é hora de voltar, ainda não passam das oito. Liga quando chegar?
Escolhi minha música favorita como toque pra quando você chamar: “Lanterna dos afogados”. Espero acordada pelas notas que não saem do telefone -nem da cabeça- à noite.


Matheus, 07/12/10