quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

onde nasce a inspiração nº2

Falta-me pulmão, ou ar, ou mãos pra segurar essa saudade.

onde nasce a inspiração


...E despertou-lhe um sorriso que acordou músculos inéditos que beiravam um quarto de século em sono profundo...

(ou fez acordar)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Poema em linha reta - Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Cafuné

Flutuo por vagas horas,
cerúleo no marejar dos seus dias.
Amante dos mares, foi no varrer dos meus remos
que desaguei nos seus braços.

Me pegou pela mão, alto-mar
me pegou pelo pé,
deixou vestígios azul-turquesa;

Me trouxe na cama café, alto-mar
me deixou acordado
até de manhã.

Mergulhador de suas horas,
anoiteço com fogo
pra te acalentar, alto-mar.

Dada a sorte do marejar dos nossos dias,
te fiz Netuno, alto-mar
te declamei capitã
do meu navio pirata.

Traga a lua, meia-luz inteira,
ventura marítima aos que navegam
e a luz coada das estrelas,
fino prumo a desatinos tão belos.


Da pacatez do meu barquejo,
com amor pra navegar:
Matheus Marins, em 09/12/2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Onde eu parei?

Hiato sem sílaba.
Uma vogal me puxa pela perna de noite na pista e dança
- Não vai me ligar?
Desengasga um verbo.
E volta a mexer o celular só pelo bloco de notas.

Se preocupa em se despreocupar
se os outros vão gostar, é problema dos outros
é problema seu o que você vai colocar pra fora.
é problema seu o que você vai colocar pra dentro.
o que você colocar pra fora é problema do que você colocar pra dentro.

é salutar, me disseram, se alimentar não só de alimentos bons, mas sentimentos também.
evitar indigestos pra si, pra outrem.
pra ontem o que é de ontem.
=)

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Estive há alguns meses sem postar aqui no blog - sem sequer escrever. Deixar a escrita de lado foi um trabalho árduo. Nos primeiros meses, não teve sequer um dia em que eu não lembrasse, não sentisse falta e, findo o expediente de coisas quaisqueres que eu fazia, não me sentisse irrealizado por não haver impresso minhas ideias, visões e sensibilidades cotidianas em letras ou formas.
Aos poucos, bem aos poucos, fui aceitando meu tempo. E conforme mais aceitava, mais ia sentindo que eu poderia até ficar bem efetuando outras funções (no caso, música, produção cultural), mas nada se compara à graça da expressão escrita. Tenho experimentado a pintura (menos do que eu gostaria) e tenho encontrado nela muito interesse também. Quem sabe um dia eu mude de ideia quanto à escrita, mas enquanto é isso, escrever pra mim nunca será uma opção. Sigo catoblepas.
O dicionário online e o endereço do blog saíram da memória do navegador.
E depois de mergulhos outros, volto sem saber onde parei, e sem ver-me perdido. Como se estivesse ficado fora por uma semana. Posso começar daqui um ponto novo. E começar outro. E outro.

Matheus Marins

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O homem das horas

Sem esforço nem desejo, subia-lhe aos olhos um calor veranil, fatura de memórias com energia demais. Eram de chuva, de preguiça, de estrada e de tédio. Tédio bom, onde já se viu? Ele viu. Foi feliz quem já viu. O calor de lembrá-lo era tal que seus olhos suavam. Suavam um suor sem querer suar de novo.
E cada gota desse suor caía como caísse ele e suas horas inteiras. O relógio parava pra ver e cada segundo que deixava de passar era arrecadado pela garganta embolada com tanto tempo seco pra contar.
Como se os olhos estivessem magoados por não vê-la num domingo vazio.


Matheus Marins,
março 2015

Cursor

pouco importa o quanto eu tente,
o cursor do mouse acaba encontrando a sua foto.
do meu itinerário de navegação no tão tão imenso mundo web,/no infinito livro web
a setinha acaba apontando pra sua página
queira eu encontrar drogas,
uma torradeira,
ou o clima da semana que vem na cidade de Maceió.


Matheus Marins

quinta-feira, 26 de março de 2015

da janela #5:

. o vento

Corre o vento
lento pra mostrar
que come o tempo sem pressa
as ambições que o homem

engole sem mastigar

quarta-feira, 25 de março de 2015

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O espelho da
transpiração do seu olhar

reflete a vida irremediável
que faz parar respiro,
feito avesso de vida,
para voltar mais vida

seu olhar,
gota d'água sem fundo,
fura o caminho encontrado
por dentro da pedra

rota de fuga
para rotinas
perdidas
no meio do caminho,

viajantes olhos,
olhos, de outras paisagens

vigilantes doutores
de mal contados
amores

generosos operários
de mal pagos
salários

olhos, destemidos
num silencio
de caducar a morte
incluso dos mortos

levemente risonhos
porque viram bastante
para acumular
sabedoria de recriança

seu olhar,
terremoto cardíaco,
já visitou os quatro pontos cardeais
e, do Nordeste,
aponta mineira verdade
se o mundo
coubesse nos olhos seus,
penso, em aéreos planos,
que a família Neves, de política,
não passaria do Tancredo.

14/10/14

terça-feira, 3 de março de 2015

quando me levo por fotografias da minha cabeça, a saudade é a presença mais nobre