sábado, 30 de julho de 2016

A Morte do Leiteiro - Carlos Drummond de Andrade



Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…

Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.

E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico.
ladrões infestam o bairro,
não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.

Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom?
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.

Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.

Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro,
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei

Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

:'( Carlos Drummond de Andrade


Deixe o ciclo das águas

Chegando no condomínio fui pegar a chave de casa no Raul e ele gritou algo que não entendi.
Estavam amigos dele que cumprimentei rapidamente enquanto Maria me ligava para levar alguma coisa.
Raul precisou repetir umas 5 vezes até eu entender que ele havia deixado um quadro para a Maria.
Disse "ok" sem entender e desci.
Peguei no carro o que Maria pedira e
Quando cheguei em casa, antes de entrar vi um quadro ao lado da porta.
Entendi o recado do Raul!
O quadro era antigo, com cara de que foi pintado mais de uma vez. Com cara de quem já esquecera pelo menos uma história.
Mas estava virado pra parede.
Peguei pra ver, era o quadro do Raul para a Isabella.
Melhor, a pintura que ele fez para a Isabella anos atrás.
Mas no quadro ela estava com a cara virada para a parede.
Aquela pintura que já vira tantos cômodos agora não olhava para nada.
Olhava para mim, era o fim e eu o testemunhara sem reação.
Sem graça, um pouco tenso.
Como quem segura sem jeito uma panela cheia de água fervendo.
A pintura tão colorida me olhava dando sinais de morte.
Como quem estivesse pronta para seguir outra via.

Estava virada para a parede.