Me consumiu o ar como se fosse fogo
E juro que ardeu aqui dentro como se queimasse deveras
consumindo de dentro pra fora
e a face rubra consumada
Nāo restou-me critério:
Voto por conhecer o mundo desde dentro dos seus olhos.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Perspectiva
Dois rios paralelos
adentram no horizonte.
Você e eu,
cada um pelo seu,
perseguimos
a ilusāo ótica
da sua convergência,
lá, no distante.
De Aitor Castells, traduzido.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Proibido ser morno
Hoje acordei cheio de vontades, engasgado com meus tantos anseios. Ainda na cama desejei ser um galã à moda antiga e quem sabe enviar uma carta apaixonada para bem longe, só pelo prazer de esperar ansiosamente por uma resposta construída com palavras imprevisíveis. Abri os olhos com a ânsia gritante de recrutar amigos, dos mais sem vergonha, e fazer com eles minha primeira serenata, dessas que começam com pedra atirada na janela e terminam em aplausos solitários e lágrimas caindo de surpresa sobre o parapeito do meu peito, água derramada pela mulher descabelada, que envergonhada mostraria todos os dentes num sorriso impossível de ser guardado para mais tarde.
Hoje despertei arrependido pelas tantas portas de carro que deixei fechadas, com medo de ser cavalheiro em demasia, de fachada, a ponto de parecer mal-intencionado num mundo que atropelou tanta gentileza do passado. Acordei sem conseguir engolir as muitas vezes que cheguei à casa dela de mãos vazias, quando o que mais queria era ter sido portador de um buquê com rosas bem tagarelas, que infelizmente deixei caladas, intocadas na vitrine da floricultura.
Hoje chorei por ter perdido os versos que a vida me obrigou a esquecer antes mesmo que eu pudesse escrevê-los em algum guardanapo de boteco, SMS etílico ou no coração alado de alguma mulher que por ao menos uma noite foi inteira minha. Hoje sorri quando me vi no espelho e em meio à minha barba escura percebi um solitário fio branco, a prova irrefutável de que estou envelhecendo, aprendendo a perder tudo que tenho para quem sabe um dia, poder ensinar algo sobre ganhar o que me falta.
Hoje comemorei com fogos de artifício e champagne as minhas incontáveis derrotas, as inúmeras vezes que passei longe do pódio e nem ao menos pude estimar o peso daquele troféu. Celebrei os gols praticamente feitos que perdi em cima da linha do pênalti, os socos dos quais não fui capaz de esquivar e principalmente, as vezes que subestimei meu adversário e felizmente percebi minha falta de modéstia enquanto superestimava-me. Aplaudi esses tantos tombos com a certeza de que foram eles que me lecionaram o sabor perigoso da vitória e todo o risco presente nas medalhas de ouro que carregamos no peito, como se vestíssemos uma armadura dourada de orgulho.
Hoje cantei Sinatra no banho e sem me importar com meu desafino fiz do xampu microfone, como se pelado eu trajasse chapéu e gravata borboleta, mais que isso: como se de dentro do meu box de vidro transparente eu pudesse enxergar o mundo todo do meu jeito, “My Way”, feito de muita poesia e folhas em branco, prontas para receber a tinta fluorescente dos meus insaciáveis desejos.
Hoje acordei fervendo, com febre de viver e uma incendiária certeza: para abrir os olhos de verdade, não é permitido ser morno. Não importa com qual pé pisará primeiro quando resolver sair da cama e do coma, apenas pise forte e mantenha seus passos com fome, o mundo está ali para que você o devore já! Não espere tanta coisa esfriar.
Ser morno é caminhar em cima do muro, é esperar o tempo passar sem passar pelo tempo. Ser morno é segurar a cintura dela com a mão frouxa, é fazer sexo sem entregar-se até colocar fogo no colchão. Ser morno é desejar coisas medianas e saciar a vontade com coisas menores ainda. Ser morno é fazer striptease pela metade, penetrar pela metade e amar pela metade. Ser morno é estar sempre meia-bomba e não deixar nenhum estilhaço cravado no mundo. Por mais masoquista que pareça, prefira aquilo que queima e inevitavelmente marca – essas são as coisas que, no futuro, te farão olhar pra trás e constatar que a vida valeu a pena.
- por Ricardo Coiro (http://www.casalsemvergonha.com.br/2012/05/29/proibido-ser-morno/)
terça-feira, 23 de abril de 2013
second impressions on SP
Ó Sāo Paulo, que vida louca levas com tanto metal e fumaça circulando por suas veias. Sāo Paulo de luzes individuais que acendem juntas e fazem um desenho a cada dia. Sāo Paulo onde tudo se encontra - à sua maneira, é claro.
Sāo Paulo maluca.
Odeio você.
Na verdade, gosto.
Sāo Paulo maluca.
Odeio você.
Na verdade, gosto.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Entusiasmo (palavras #1)
Você se deita e os sonhos fazem fila pra te conquistar.
Como se você só tivesse uma noite de idade, sai pelas ruas amarelas dessa cidade à procura de coisas novas pra ver e contar. Se encontra com vibrações que jamais imaginara existir e se torna só uma questão de tempo até você conhecer uma sensação tão enlouquecedora... Entusiasmo.
Entusiasmo, do grego "ter os deuses dentro", um sentimento otimista tão grande que pode transbordar pelos poros causando arrepios. E você não sabe o que fazer porque não dá conta de todo o sentimento que te toma, você querendo aproveitá-lo todo.
Entusiasmo é a palavra que inventaram para chamar o que faz a gente crer que as perdeu.
Esbanjar a vida a todos os lados e sentir-se vivo.
Esteja abert
Como se você só tivesse uma noite de idade, sai pelas ruas amarelas dessa cidade à procura de coisas novas pra ver e contar. Se encontra com vibrações que jamais imaginara existir e se torna só uma questão de tempo até você conhecer uma sensação tão enlouquecedora... Entusiasmo.
Entusiasmo, do grego "ter os deuses dentro", um sentimento otimista tão grande que pode transbordar pelos poros causando arrepios. E você não sabe o que fazer porque não dá conta de todo o sentimento que te toma, você querendo aproveitá-lo todo.
Entusiasmo é a palavra que inventaram para chamar o que faz a gente crer que as perdeu.
Esbanjar a vida a todos os lados e sentir-se vivo.
Esteja abert
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Sem Título
Ligaçōes às 2:00 AM do recém sábado e restriçōes de bagagem para correr o mundo no peito quando você só quer levar e trazer coisas invisíveis. Nosso fuso horário oposto nāo muda a frequência do coraçāo, que sobe à cabeça e vai aos pés dependendo de. Psicodelia de sobra na trilha dessas noites ainda nāo sei se quero saber que horas sāo. Manchas de álcool na memória.
Esqueci em casa o meu liquidificador.
Esqueci em casa o meu liquidificador.
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domingo, 16 de dezembro de 2012
Da janela #4
Um homem está parado na calçada. Chuta o chāo algumas vezes, olha ao seu redor, pro alto. Imagina se estaria sendo visto. Olha o relógio sem ver as horas, olha tudo o que pensa. Aperta o embrulho que tem nas māos, dá meia volta e pára quando se ouve o "tleck!" do portāo se abrindo. De dentro do portāo, ele já via antes através do vidro, sai uma mulher tāo arrumada quanto ele. De longe se supunha que tinham bom cheiro, mas nāo se aproximaram demais quando se aproximaram. Uma māo na cintura, nem beijo no rosto. Ela, pelo contrário, torce os lábios em brincadeira. A saudaçāo é uma broma que leva um pouco mais que o comum. Na rua, apenas eles.
Quando vāo começar a andar, ele lembra do embrulho já amassado pela espera. Entrega-lhe em gesto de presente. Ela sorri olhando pra ele, leva o embrulho ao peito agradecida e o abre. É uma bolsa que, dobrada em mil pontas, cabe no bolso, mas aberta pode levar muitas coisas. Um monte de livros, maquiagem, celular, as chaves do portāo e da porta que ele gostaria de entrar de volta com ela. O presente é analisado sem grande satisfaçāo - nāo era mesmo muito bonito, um objeto trivial. Talvez para eles tenha mais significado. E ele vai embrulhá-lo de volta para ela. Enquanto a bolsa se vê dobrada em mil partes de volta, ela o observa e ajeita o cabelo dele. Pronto.
E finalmente seguem andando juntos, com certo distanciamento, certa tranquilidade, certa expectativa de sei lá, um avanço, uma boa conversa, uma expectativa de nāo se ter expectativa que atrapalhe. Dobram a esquina juntos.
Eu ficaria aqui escrevendo esperando eles voltarem daqui a algumas horas, seria interessante. Mas o meu interfone começa a tocar.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
do jeito de falar
Os olhos falam melhor que a língua.
Nao precisa falar mais nada.
*tava pensando em Schadenfreude, Gezellig e Saudade: as palavras de tradução mais complicada que eu já conheci.
Nao precisa falar mais nada.
*tava pensando em Schadenfreude, Gezellig e Saudade: as palavras de tradução mais complicada que eu já conheci.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
que acalmes
sua voz é uma música suave quando te alegras e te acalmas
e o som de um vento chorando no abismo quando te afliges
e o som de um vento chorando no abismo quando te afliges
domingo, 2 de dezembro de 2012
passou!
- Agora a gente já tá na metade da viagem.
- É mesmo!
- Daqui a pouco a gente vai ver, já acabou!
- É sempre assim a vida, quando vai ver, já acabou.
- Quando vai ver, já tá no caixão
sábado, 1 de dezembro de 2012
anti-inércia do itinerário
Se dinheiro nao tivesse valor, o que você estaria fazendo agora?
É uma perda de tempo fazer coisas que você nao quer correndo pro futuro sem nunca alcançá-lo.
Romper com as suas margens é um esforço contínuo.
sábado, 17 de novembro de 2012
Canção triste para um asteróide
éramos dois corações tao danificados e desabitados apenas procurando um abrigo, sem saber o que buscávamos. E o vazio parecia exposto em apenas 5 minutos do seu silêncio. Andando pela cidade sem que nos movêssemos.
- o que você costuma fazer por aqui?
- eu vivo em um sonho do qual nao consigo despertar.
- o que você costuma fazer por aqui?
- eu vivo em um sonho do qual nao consigo despertar.
domingo, 11 de novembro de 2012
de conversa
...
- O homem nao conhece nem a si mesmo por completo, como é que vai querer conhecer e saber de todo o universo e o mundo?
- Sao ambas as coisas infinitas.
- Mas nós teremos um fim.
- Infinitas quanto à profundidade. Existem tantas nuanças, becos, coisas crescendo e morrendo o tempo todo aqui dentro. Quem sabe o que poderiam revelar os 90% do que há em nós que estao ignorados? Não quis falar da duração. Estamos aqui por pouco tempo. Embora nossas energias estejam conectadas com tudo.
- E daqui, para onde vamos?
- Na real pouco importa. Nao conhecemos nem tudo o que há aqui, para que vamos querer ver de antecipação o que vem depois (se é que vem)?
- Nós nunca conheceremos tudo o que há, nem nunca veremos a todas as coisas. E é justamente essa a melhor parte - a eterna busca, o descobrimento infindo.
...
- O homem nao conhece nem a si mesmo por completo, como é que vai querer conhecer e saber de todo o universo e o mundo?
- Sao ambas as coisas infinitas.
- Mas nós teremos um fim.
- Infinitas quanto à profundidade. Existem tantas nuanças, becos, coisas crescendo e morrendo o tempo todo aqui dentro. Quem sabe o que poderiam revelar os 90% do que há em nós que estao ignorados? Não quis falar da duração. Estamos aqui por pouco tempo. Embora nossas energias estejam conectadas com tudo.
- E daqui, para onde vamos?
- Na real pouco importa. Nao conhecemos nem tudo o que há aqui, para que vamos querer ver de antecipação o que vem depois (se é que vem)?
- Nós nunca conheceremos tudo o que há, nem nunca veremos a todas as coisas. E é justamente essa a melhor parte - a eterna busca, o descobrimento infindo.
...
sábado, 3 de novembro de 2012
Aventura na Casa Atarracada
Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
Ana Cristina César
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
Ana Cristina César
domingo, 28 de outubro de 2012
da janela - nº 3
O esforço deve ser mantê-la aberta para que os pensamentos e energias circulem.
O esforço é para que isso nao seja um esforço.
E mesmo estando ela sempre circulante, nós nunca saberemos de nada.
Se tudo já foi inventado, o que vem depois da curva,...
Se a janela estiver bem aberta, nao haverá tempo para preocupações atoas.
Dorme-se pouco mas, para compensar, sonha-se muito.
Portanto abra a janela. Deixe entrar, deixe sair.
O esforço é para que isso nao seja um esforço.
E mesmo estando ela sempre circulante, nós nunca saberemos de nada.
Se tudo já foi inventado, o que vem depois da curva,...
Se a janela estiver bem aberta, nao haverá tempo para preocupações atoas.
Dorme-se pouco mas, para compensar, sonha-se muito.
Portanto abra a janela. Deixe entrar, deixe sair.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Sobre as viagens - a saudade
Contraditório, mas a estrada preenche os vazios que a d i s t â n c i a causa.
(Nao, isso nao é verdade.)
(Nao, isso nao é verdade.)
Contos da janela - conto nº 2
O primeiro foi o último.
Uma moça derrubou a lixeira aqui e foi olhar em volta. Aparentemente. Digo porque quando olhei lá pra fora a lixeira da rua estava deitada e a menina olhava aqui pra janela. Talvez tenha pensado ser eu um homem virando a noite a fazer o seu trabalho. Correta.
Mas ela se deu mal, era um escritor. Podia ser qualquer coisa, até policial. Escritor, nao.
Fiquei olhando pra saber as reaçoes. A lixeira continuou deitada.
Uma moça derrubou a lixeira aqui e foi olhar em volta. Aparentemente. Digo porque quando olhei lá pra fora a lixeira da rua estava deitada e a menina olhava aqui pra janela. Talvez tenha pensado ser eu um homem virando a noite a fazer o seu trabalho. Correta.
Mas ela se deu mal, era um escritor. Podia ser qualquer coisa, até policial. Escritor, nao.
Fiquei olhando pra saber as reaçoes. A lixeira continuou deitada.
domingo, 21 de outubro de 2012
da janela nº1 - morte viva
Um cigarro, jeans rasgados, caminhos tortos traçados sem grande interesse na cegueira do costume, fronteira da inexistência. Uma noite que será esquecida daí uns dias. Desimportante, apenas.
Transformando todos os seus caminhos em gelo você segue, o tempo patinando atrás.
Um sinal, uma lembrança. Algo de fatal escondido no inventário das suas últimas relações: melhor nao comentar.
Avança por ruas que perderam o sentido.
Belas flores mortas em vasos d'água.
Talvez você nao volte mais aqui.
Transformando todos os seus caminhos em gelo você segue, o tempo patinando atrás.
Um sinal, uma lembrança. Algo de fatal escondido no inventário das suas últimas relações: melhor nao comentar.
Avança por ruas que perderam o sentido.
Belas flores mortas em vasos d'água.
Talvez você nao volte mais aqui.
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