quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Amor, meu grande amor
Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras...
Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água...
Amor, meu grande amor
Me chegue assim
Bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir
O que não sente...
Pois tudo o que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim, até o começo...
Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira...
Enquanto me tiver
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Me reconheça...
Pois tudo que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo...
Amor, meu grande amor
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Por favor, me reconheça...
Pois tudo que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo...
Angela Rô Rô
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Às nossas horas
(...)Dentro do seu aconchego o tempo parecia
estar atrasado e se apressava. O mais veloz dos corredores batendo
todos os recordes. A gente o adiava um pouco, dava um jeito de passar
mais algumas horas. E esse tempo tinha boa forma, não cansava. Mas a
gente pingava suor de tanto tentar acompanhar o relógio. E por
sermos retardatários nessa maratona contra o tempo, acabamos ficando
mais jovens.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Só sei
Quando você está num relacionamento, todas as emoções são vivenciadas a dois. Impossível ser feliz sozinho. Inexiste a senhora tristeza em carreira solo. Ganha cores outras a lágrima clara que corre diferente.
Daí sei que é séria a dança, e que quando rodamos pra valer o mundo parece que gira só de brincadeira.
Gira mais rápido porque o tempo corre. E a gente também, mas não consegue alcançá-lo - exímio corredor.
É desse jeito que na sua geografia me perco de perto, de dentro. Viajo por desconhecidos meios de transporte.
Isso é o que o amor faz.
Daí sei que é séria a dança, e que quando rodamos pra valer o mundo parece que gira só de brincadeira.
Gira mais rápido porque o tempo corre. E a gente também, mas não consegue alcançá-lo - exímio corredor.
É desse jeito que na sua geografia me perco de perto, de dentro. Viajo por desconhecidos meios de transporte.
Isso é o que o amor faz.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Escrever
Escrever demanda concentração. É mergulhar nas palavras. As palavras mergulham nos significados. Os significados mergulham nos sentimentos. Escrever é mergulhar de peito aberto em sentimentos. Nem sempre bem vindos, alguns contraditórios. Escrever demanda coragem, desprendimento consigo mesmo. Surfar com demônios e deuses próprios.
Escrever é se doar ao que dói.
E é importante que doa.
Essencial que se doe.
Escrever é se doar ao que dói.
E é importante que doa.
Essencial que se doe.
domingo, 22 de janeiro de 2012
à sua fotografia
Essa, que fiz com os olhos e arquivei no melhor lugar do coração: você com uns prédios e o firmamento ao fundo, naquele fim de tarde de ventos bons, meio nublado e completamente perfeito.
Ao brilho do seu olhar, tão repleto que nítidos ficavam refletidos eu, a areia onde estávamos e o mar, calmo, a metros de distância. O seu sorriso me prendia e eu observava todos os cantos que podia, divisando seus contornos e volumes com o cuidado de não deixar falha nenhuma parte dessa fotografia. E nem daquilo que não se podia ver:
O suor da sua mão dentro da minha.
A pausa, o silêncio entre uma inspiração e uma expiração, antes de me desarmar um pouco mais, desfazer o nó na garganta e te convidar a se sentir em casa perto do meu peito.
Coisas grandes demais para o olho humano.
E a gente rindo, promissores desse jeito num fim de tarde, era tão inesperado quanto a terra inverter seu itinerário e o sol voltar a nascer enquanto se põe.
Ainda descubro o nome desse verbo novo que a gente conjuga.
Pois o que acontece entre nós passou longe dos dicionários.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Nossa estação
Os vestígios do teu perfume na minha roupa
Os resquícios do teu sorriso nos meus lábios
O cintilar dos olhos teus, infinito.
E só por essas epifanias, me vale abrir mão do que estará ali fora - outras tantas, poucas.
(Ao teu lado, inacreditavelmente mínimas.)
Uma paixão como um mar, para dentro do qual mergulho incessantemente e descubro sua profundidade aumentando, vertiginosa. Sempre para além do que eu supunha. O meu fôlego não falta. Foi tanto tempo de mergulhos apenas superficiais, burocráticos, que sequer me desconfiava capaz de flutuar tão satisfeito entre o fundo e a superfície. E a pressão do mar, que aumenta quanto mais profundos ficamos, servindo apenas para deixar tudo o que é nosso mais intenso.
Os resquícios do teu sorriso nos meus lábios
O cintilar dos olhos teus, infinito.
E só por essas epifanias, me vale abrir mão do que estará ali fora - outras tantas, poucas.
(Ao teu lado, inacreditavelmente mínimas.)
Uma paixão como um mar, para dentro do qual mergulho incessantemente e descubro sua profundidade aumentando, vertiginosa. Sempre para além do que eu supunha. O meu fôlego não falta. Foi tanto tempo de mergulhos apenas superficiais, burocráticos, que sequer me desconfiava capaz de flutuar tão satisfeito entre o fundo e a superfície. E a pressão do mar, que aumenta quanto mais profundos ficamos, servindo apenas para deixar tudo o que é nosso mais intenso.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Je ne regrette rien
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.
Avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.
Balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
Balayés pour toujours
je repars à zéro...
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Car ma vie, car mes joies,
Pour aujourd'hui
ça commence avec toi
domingo, 8 de janeiro de 2012
Tempo de que
Assim de repente
Não sabe se foge ou se entrega
Se deixa ou se leva
Se ama ou se parte
Assim de verdade
Uma parte é amor
A outra é a saudade que não quer-se ausente de outroras
Arde o que sente
mas congela o peito para preservar um sentimento velho de mulher amada
Pose risonha e as digitais de um certo cara ainda no coração
Senta-se à calçada cultivando a boemia numa lata de cerveja. Gata noturna vestida de sombra.
Reaviva o passado enquanto o futuro não chega.
Não permite que chegue.
Não sabe se foge ou se entrega
Se deixa ou se leva
Se ama ou se parte
Assim de verdade
Uma parte é amor
A outra é a saudade que não quer-se ausente de outroras
Arde o que sente
mas congela o peito para preservar um sentimento velho de mulher amada
Pose risonha e as digitais de um certo cara ainda no coração
Senta-se à calçada cultivando a boemia numa lata de cerveja. Gata noturna vestida de sombra.
Reaviva o passado enquanto o futuro não chega.
Não permite que chegue.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Queixa
"Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza"
Um Caetano talvez ajude a entender nós dois. Já que a essa hora não posso viver, compreender ou teorizar um pouco me basta para encontrar um nível de envolvimento menos insatisfatório.
Uma espécie de masturbação cardíaca, eu definiria.
Pra tentar acalmar o coração que te sente tardar; os olhos que buscam os seus em qualquer canto para descansar. Atentos, desatentos, negligentes.
Numa paixão desmaiada, em sono leve que lhe basta qualquer bobeira para despertar elétrica, te adio.
Adio um segredo mal guardado, mal revelado. Adio a coragem que suponho ter. Afasto. Aproximo-me.
Cativo um sonho mal vivido.
Vivo um sonho maltratado.
Sonho uma vida mal cativada.
Cativo de nós dois, deixo tanto potencial se tornar.
Só mais um amor mal resolvido.
Que novidade.
"E sonho esse sonho
que se estende
em rua, em rua
em rua
em vão."
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza"
Um Caetano talvez ajude a entender nós dois. Já que a essa hora não posso viver, compreender ou teorizar um pouco me basta para encontrar um nível de envolvimento menos insatisfatório.
Uma espécie de masturbação cardíaca, eu definiria.
Pra tentar acalmar o coração que te sente tardar; os olhos que buscam os seus em qualquer canto para descansar. Atentos, desatentos, negligentes.
Numa paixão desmaiada, em sono leve que lhe basta qualquer bobeira para despertar elétrica, te adio.
Adio um segredo mal guardado, mal revelado. Adio a coragem que suponho ter. Afasto. Aproximo-me.
Cativo um sonho mal vivido.
Vivo um sonho maltratado.
Sonho uma vida mal cativada.
Cativo de nós dois, deixo tanto potencial se tornar.
Só mais um amor mal resolvido.
Que novidade.
"E sonho esse sonho
que se estende
em rua, em rua
em rua
em vão."
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Só uma experiência banal
Apenas ia à praia a jogar futebol quando vi de relance na banquinha de livros antigos e usados de um senhor da minha rua uma capa que eu procurava há muito. Primeiro passei direto, depois voltei e aí acreditei no que via: “Os dragões não conhecem o paraíso”, do Caio. O preço surpreendeu-me ainda mais: módicos 5 reais. Nos sebos online de todo o país, este livro só se encontra a partir de 90 pratas. No mesmo insntante pedi que deixasse o livro reservado. O senhor colocou-o então no seu carrinho de mão. Voltando da praia ele já havia guardado todas as suas quinquilharias e o meu desejado livro de contos havia se perdido na bagunça. Na manhã seguinte voltei à banquinha e consegui enfim comprá-lo.
Agora ao que interessa. O que me chamou mais a atenção nesse livro, que eu já havia lido em grande parte pelo computador, foi a
Das coisas que mais gostei em ter esse livro usado foi poder ver a sua dedicatória: “Ao Paulo pela Ana com carinho te-le-pá-ti-co do A.TL, SP 88."
Na máquina fica além do impossível transcrever lealmente uma dedicatória feita à mão, mas ela é mais ou menos assim. te-le-pá-ti-ca. Gosto da forma como as ideias flutuam numa folha em branco submetida a uma mão e uma caneta.
Gosto das citações no começo de cada um dos contos. Quando não há citação, fico mais intrigado que o normal com o que estará escrito ali e como estará feito este fio entre cada uma das 13 obras que compõem uma só, se você quiser. Sim, eu esqueço muito facilmente das histórias que leio.
Mas o que me deixou realmente cativado foi uma lista que encontrei no meio do livro, como que guardada. Ou guardando uma página, que já desguardei porque troquei a lista de lugar sem perceber direito a página.
Impossível dizer se a pessoa ia viajar, voltava de viagem, se ia fazer compras, o que? Provavelmente ia viajar para ficar por um bom tempo fora. E mais: a lista está pela metade.
Ele leva assim:
"...
Perfume - TOP Internacional
TV/Rádio -
Fitas cassete
Canetas variadas
Lanterna
latas de biscoito
cortes de seda (4m/4,5m) - Pernambucana
Bijoterias - Gerieve
Baralho - ? Mundial
Dominó - ? Mundial
Albu... de ..." UM RASGO
Ao fim uma certeza:
preciso fazer isso com os livros que eu for passar.
deixar um vestígio, algo para o próximo leitor se perguntar, ou se responder. Confundir.
Um vestígio de alguma coisa.
Escreverei um conto sobre a lista. Aguardem.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Memória
Acordou preguiçosa, rolou na cama como se tentasse apagar o sono e levantou séria, despenteada. Debaixo do chuveiro, espantou um diário zumbi do corpo. Ligou a cafeteira e ia separar a roupa do serviço quando se deparou com o calendário. 25 de agosto. Tem dia que dói ao ser olhado. Este era vermelho, diferente dos outros, pretos e quase todos riscados – fim de mês. Era diferente, este dia. Fazia exato um ano que seu pai morrera, num lugar bem distante dali.
Inevitável
lembrar da infância, dos olhos verdes, dos cabelos antes louros e
ultimamente brancos, do jeito, momentos, gostos e cheiros repetentes
e repentinos, tanta coisa. Lembrou também de tudo o que acontecera
desde então e até a fizera se mudar para seguir adiante. Ainda
novíssimo, o lugar. Aí lembrou do relógio que, sobre o calendário,
não parava. Lembrou que esqueceu do café. Estava atrasada. Mais um
atraso seria intragável como o gosto do café perdido. Mas nenhum
amargo lhe parecia tão forte quanto o amargo da falta. Correu.
Na
rua o movimento era diferente, notou logo que saiu de casa. Todos
pareciam mais alegres, descompromissados. Achou que fosse pelo
contraste visual, posto que ela estava especialmente triste e cheia
de afazeres. Andou dois quarteirões para esperar pelo ônibus que
deixava no centro da cidade e a estátua do primeiro presidente hoje
não estava pichada. Logo depois de cruzar a roleta, lembrou que
esquecera o crachá – outra vez. Simpatizou com o velho cobrador,
em vias de se aposentar, que também não estava lá muito feliz.
Sentou perto dele para se sentir mais em casa na sua melancolia.
Pensou que talvez houvesse caído ao homem a ficha por ter trabalhado
a vida inteira sob o mesmo itinerário.
Meia
hora depois, teve de saltar antes do ponto ideal porque a principal
avenida da cidade estava fechada. Provavelmente algum acidente sério.
Evitou tomar a avenida mesmo a pé. Contornou-a a passos apressados e
chegou ao edifício comercial cheirando a suor e ausência, quarenta
minutos atrasada – tempo que gastara revirando a estante da
memória. Engoliu o choro com uma dessas balas que vendem nos ônibus
e, quando ia entrando no edifício, tomou uma porrada não sabe de
onde. Hoje não, pensou. Com o coração aos pulos, ela segurou suas
coisas com força e deu alguns passos para trás, indefesa.
Passaram-se segundos e nada aconteceu, foi quando teve coragem de
olhar a sua volta e viu ninguém. Nem do outro lado da rua. Tudo
deserto. Apenas um som ritmado vindo da avenida, não sabia o motivo
da algazarra. Agora atenta, retomado o fôlego, ia ingressar no seu
local de trabalho já reassumindo a tristeza da falta. Foi quando viu
seu reflexo se aproximar enquanto chegava perto da porta de vidro que
bloqueava a entrada para o prédio. Havia dado com a cara na porta,
compreendeu – que tola. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Ao lado
da porta, um papel colado informando “Em comemoração à
independência, dia 25 de agosto não funcionaremos.”
Podia
entender um pouco agora. Etnocentrista, achou que a causa da
vermelhidão nas letras do calendário, que ganhara numa farmácia,
era o primeiro aniversário da morte de seu pai. Saiu da rua deserta
e caminhou até a avenida para ver o que se passava. O dia, motivo de
orgulho na memória daquele pequeno país, era de festejar. Alguns
usavam a data como pretexto para a farra, outros afirmavam discursos
de integração nacional. Todos num só sentimento e ela voltou a se
sentir estrangeira. Sem conseguir se integrar nem querer estragar a
festa de ninguém, voltou para pegar o ônibus e mais um cobrador -
este ainda jovem - era triste, dependente. Em função das voltas que
precisou dar e dos carros parados de qualquer maneira na rua, o
ônibus demorou muito além do habitual e ela conseguiu chegar em
casa quando o sol já queria começar a se pôr.
Adentrou
seu lar e sentiu o velho odor da ausência. Aroma de pai. Ela com o
cheiro da festa da rua. Precisou de outro banho e deve ter se molhado
mais com as lágrimas que com água corrente. Ligou no telejornal e
reafirmou o que descobrira: dia da independência, integração
nacional, alegria. Para ela, dia de saudade, de nó na garganta,
dependente de uma memória que não poderia deixar para trás. Comeu
algo a duras penas e, quando a tarde anoiteceu, manteve apagadas
todas as luzes.
Foi até a mesinha ao lado da sua cama e acendeu uma vela que iluminou de prima a fotografia meio batida de um senhor de olhos claros e cabelo branco, quase amarelo. A luz difusa da vela deixava apenas vestígios do azul latejante de sua colorida blusa. Suspirou ao congelado riso dele. Enquanto os fogos queimavam lá fora, ela, órfã e castrada do coletivo, só queria dormir em paz, sem pais. Amanhã, com o país esquecendo o motivo da festa, que existirá apenas em vestígios nos jornais, nas caras amassadas de ressaca, na memória, ela voltará a pertencê-los.
Foi até a mesinha ao lado da sua cama e acendeu uma vela que iluminou de prima a fotografia meio batida de um senhor de olhos claros e cabelo branco, quase amarelo. A luz difusa da vela deixava apenas vestígios do azul latejante de sua colorida blusa. Suspirou ao congelado riso dele. Enquanto os fogos queimavam lá fora, ela, órfã e castrada do coletivo, só queria dormir em paz, sem pais. Amanhã, com o país esquecendo o motivo da festa, que existirá apenas em vestígios nos jornais, nas caras amassadas de ressaca, na memória, ela voltará a pertencê-los.
Matheus
Marins Alvares
sábado, 3 de dezembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
Nada por mim
Acostumei-me ao teu corpo como por sobrevivência se adapta um bicho a um novo habitat e, por assim dizer, acabei tomando gosto pelo seu território. Primeiro procurei por instinto, a sabor ou dissabor, a qualquer custo suprir-te do que querias de mim. Só por fazê-la satisfeita assim, a troco de teu sorriso – em segredo: só o que eu queria.
Depois, pelos termos do nosso amor didático, comecei a suspeitar as maneiras de te saborear. Como se eu bicho aprendesse a comê-la feito fruta inédita. Estreando pela insípida casca e insistentemente passando a um curioso bagaço onde você me guiava para o seu íntimo. Daí finalmente, conduzido pelos seus calores, desvendava cada vez melhor o jeito certo de te provar. Na minha irracional sede, te devorava a polpa e engolia sorridente o caroço até que você pedisse trégua. Foram assim noites, intervalos, horários de almoço a te tomar enquanto eu passava de bicho a humano e então a dependente.
Apaixonei-me não só pelo sorriso, mas pelos caminhos para fazê-la sorrir. Mantendo o segredo, fiz da sua delícia o meu motivo – afinal, o que é melhor que ver a pessoa amada feliz?.
Não custou até que eu compreendesse o meu papel ao pé da cama. Até você me sorrir com o sorriso que eu te ensinara a sorrir e me propor que a deixasse em paz.
- Não faça assim.
Matheus
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Ainda é tarde
musga
Ela falou você tem medo
Aí eu disse quem tem medo é você.
Quem tinha medo era eu.
cedo, cedo, cedo, cedo,
tarde.
Ela falou você tem medo
Aí eu disse quem tem medo é você.
Quem tinha medo era eu.
cedo, cedo, cedo, cedo,
tarde.
domingo, 30 de outubro de 2011
saroH
(...) Interminável e efêmero olhar, me fazendo feliz para sempre em eternidades de dois segundos. Me tocava como se nossos corpos estivessem prestes, o olhar. De forma que, às três rosas da tarde, pareciam as horas floridas para sempre. Dava o relógio inregulares e infindas voltas recobrindo o universo com suas rosas. Cores que chegam sem avisar, que passam sem perceber. No intervalo de olhos que se batem cabem as matizes das horas passadas e de outras que ainda virão.
Quero todas as suas cores nos mais esquecidos tons.
Matheus
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O Pintor
Na casa onde eu moro tem uma janela e uma poltrona. A janela da casa é uma moldura para o céu, que pinta há sei lá quantos milhões de anos um quadro diferente por dia. Eu sou fã das obras do céu. Pinta ao vivo e sem descanso, de graça e sequer cobra direitos autorais. O céu é o maior artista que eu conheço, em todos os sentidos.
Eu disse que tenho uma poltrona porque sua relação com a janela é das mais gostosas. Dá um ângulo pelo qual se vê mais céu e árvore que prédios e fios. A arte do homem aqui é antagonista à do céu. Exceto pelas vezes que o homem resolve criar janelas. Adoraria uma janela maior, mas dá pra ser feliz com essa daqui.
Aqui deitado na sala, observando as pinturas ao vivo do meu artista favorito, eu tenho a deliciosa sensação de não precisar de mais nada. Colocaria uma música, mas respeito o trabalho dos pássaros. Pra uma cidade de mais de 500 mil humanos, até que eles fazem mais barulho que o comum na minha casa. Quase não ouço os longínquos motores. Acho motores um desacato aos ouvidos.
Agora o céu desenhou um sujeito parecido com papai noel, só a cabeça, gorro e barba. Será que alguém mais percebeu?
Quando falam mal do seu trabalho, o céu costuma chorar, o que molha todo mundo. Quando o céu entra em depressão, uma galera pode ficar sem casa. É a natureza cobrando as contas do dito progresso. Talvez para as pessoas erradas. Cobrar de quem não tem não parece justo. Mas o céu contiua fazendo o seu trabalho artístico pra quem tem e pra quem deve.
Penso que o céu deve ter um bom patrocinador de tintas azuis.
Acenderam as luzes amarelas da rua, o dia está chegando ao fim. O céu tomou um ar triste.
Mas hoje não vai chover.
Matheus Marins
24/10/11
Eu disse que tenho uma poltrona porque sua relação com a janela é das mais gostosas. Dá um ângulo pelo qual se vê mais céu e árvore que prédios e fios. A arte do homem aqui é antagonista à do céu. Exceto pelas vezes que o homem resolve criar janelas. Adoraria uma janela maior, mas dá pra ser feliz com essa daqui.
Aqui deitado na sala, observando as pinturas ao vivo do meu artista favorito, eu tenho a deliciosa sensação de não precisar de mais nada. Colocaria uma música, mas respeito o trabalho dos pássaros. Pra uma cidade de mais de 500 mil humanos, até que eles fazem mais barulho que o comum na minha casa. Quase não ouço os longínquos motores. Acho motores um desacato aos ouvidos.
Agora o céu desenhou um sujeito parecido com papai noel, só a cabeça, gorro e barba. Será que alguém mais percebeu?
Quando falam mal do seu trabalho, o céu costuma chorar, o que molha todo mundo. Quando o céu entra em depressão, uma galera pode ficar sem casa. É a natureza cobrando as contas do dito progresso. Talvez para as pessoas erradas. Cobrar de quem não tem não parece justo. Mas o céu contiua fazendo o seu trabalho artístico pra quem tem e pra quem deve.
Penso que o céu deve ter um bom patrocinador de tintas azuis.
Acenderam as luzes amarelas da rua, o dia está chegando ao fim. O céu tomou um ar triste.
Mas hoje não vai chover.
Matheus Marins
24/10/11
domingo, 16 de outubro de 2011
Improváveis
Se temos para dois tanto e tão pouco
tempo, que dos beijos percamos a conta. Que não baste o ar que
falta, nem a confissão desengasgada correndo pelo ouvido. Tampouco
bastem os segredos desvelados no relance de olhares ébrios. Que cada
gesto carregue a intensidade de uma despedida, tendo ainda acesa a
imprevisão de uma estreia.
E façamos florir o que de mais bonito
houver nesse campo onde as coisas carecem de nomes, mas transbordam
de significados. Que atravessemos confundindo as pernas o nosso tempo
de madrugadas e risos frouxos. Com o infinito no olhar efêmero, que sejamos
justos com a nossa ventura. É o melhor que podemos fazer.
Matheus
Matheus
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Sobre interpretar o tempo e observar o seu trabalho silencioso
(...)vê água do mar refletindo amarelo pela
luz do sol nos prédios naquele quase final de tarde. Uma vista me
curando a retina de outras bobagens que eu só queria esquecer. Águas
dançando ante montanhas tão serenas quanto tristes por paradas há
sei lá quanto tempo ali. Corpos tomando banho de mar e de sol,
correndo e voltando, como as ondas, de lugar algum.
Apenas mirando o fluxo da paisagem e do
tempo a tornar tão efêmeros todos nós. Todos nós não mais que
passageiros, não menos que agentes influindo e sofrendo influências,
construindo aparências e reformando essências. Fazendo fotografias
pra lembrar o que já vai passando, conversando pra passar o tempo,
correndo pra estar em forma, às vésperas de qualquer coisa. Às
minhas costas corre a cidade dentro de metais e rodeada por concreto.
Mas vendo o mar a gente quase que contraditóriamente lembra do chão,
dos pés que são dois e de como é bom apenas pôr um depois do
outro. Vê um horizonte ainda não verticalizado e sabe que pra voar
basta errar o chão. Lembra da preguiça, de como ela é valiosa e
até necessária em pequenas doses nos dias de hoje.
Eu
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