sábado, 3 de novembro de 2012

Aventura na Casa Atarracada

Movido contraditoriamente 
por desejo e ironia 
não disse mas soltou, 
numa noite fria, 
aparentemente desalmado; 
- Te pego lá na esquina, 
na palpitação da jugular, 
com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado 
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não, 
desconversado, na beira do andaime 
ainda a descoberto: - Eu também, 
preciso de alguém que só me ame. 

Pura preguiça, não se movia nem um passo. 
Bem se sabe que ali ela não presta. 
E ficaram assim, por mais de hora, 
a tomar chá, quase na borda, 
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

Ana Cristina César

domingo, 28 de outubro de 2012

da janela - nº 3

O esforço deve ser mantê-la aberta para que os pensamentos e energias circulem.
O esforço é para que isso nao seja um esforço.
E mesmo estando ela sempre circulante, nós nunca saberemos de nada.
Se tudo já foi inventado, o que vem depois da curva,...
Se a janela estiver bem aberta, nao haverá tempo para preocupações atoas.

Dorme-se pouco mas, para compensar, sonha-se muito.
Portanto abra a janela. Deixe entrar, deixe sair.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sobre as viagens - a saudade

Contraditório, mas a estrada preenche os  vazios   que    a   d i  s   t    â     n      c       i        a     causa.

(Nao, isso nao é verdade.)

Contos da janela - conto nº 2

O primeiro foi o último.

Uma moça derrubou a lixeira aqui e foi olhar em volta. Aparentemente. Digo porque quando olhei lá pra fora a lixeira da rua estava deitada e a menina olhava aqui pra janela. Talvez tenha pensado ser eu um homem virando a noite a fazer o seu trabalho. Correta.
Mas ela se deu mal, era um escritor. Podia ser qualquer coisa, até policial. Escritor, nao.

Fiquei olhando pra saber as reaçoes. A lixeira continuou deitada.

domingo, 21 de outubro de 2012

da janela nº1 - morte viva

Um cigarro, jeans rasgados, caminhos tortos traçados sem grande interesse na cegueira do costume, fronteira da inexistência. Uma noite que será esquecida daí uns dias. Desimportante, apenas.
Transformando todos os seus caminhos em gelo você segue, o tempo patinando atrás.
Um sinal, uma lembrança. Algo de fatal escondido no inventário das suas últimas relações: melhor nao comentar.
Avança por ruas que perderam o sentido.
Belas flores mortas em vasos d'água.

Talvez você nao volte mais aqui.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

mais fundo

Plus je te possède,
Plus je te désire.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Volteios

Vai saber que histórias contém esses teus olhos, o quanto a noite te alterou. O que trazes da rua, o que levas de casa...
O que a linha tênue dos seus passos desenhou no eixo do globo dos meus olhos. O que do descaso dos seus beijos desaguou nas minhas estrofes. Sabor dadaísta.
Tanto faz que continuemos procurando essa coisa que nao sabemos o que.
Indiferente que encontremos, que "cheguemos lá". "Lá" onde? Já estamos aqui.
Melhor viver agora, no intervalo entre uma inspiraçao e uma expiraçao, onde cabem todas as nossas paixoes.
Melhor nao pensar no futuro.
Sem metas nem prazos,
Confundindo os amigos, sem memória pro mal
Querendo rasgar o documento e o dinheiro

mas nao pode.

O poder estraga tudo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A riqueza que nós temos


Voce é o meu maior laço, cordao umbilical.
Me alimenta de saudade, afeto e amor
Sim, amor
Que mesmo distante um coraçao pode sentir-se aquecido.
O calor de uma alma transmitindo o gostinho de casa à outra
e com isso distancia nenhuma pode.
Podem passar-se meses, anos-luz- de distancias
mas desse gostinho nao serei capaz
nao, esquecer, nao
Esse que tatua por dentro do peito o sorriso fácil, as surpresas
Quem me olha, me vê de pele limpa

Se eu me vejo, está carimbado nas melhores partes do meu corpo você
Meu corpo no de você
Que você seja feliz entao, minha passarinha.
Que conserve alegres as suas marcas em mim

Até que, mais que os calores, a luz dos nossos olhos se possam reencontrar.
E o que tem de tocante num olhar, se nao o seu calor?

Dorme agora,
é só o vento lá fora.



A mudanca tem me impedido de vir aqui postar!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ninguém te impede de ser escritor
a não ser você mesmo

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Se as suas pernas fossem bolas de ferro de 16 toneladas, ainda assim não causariam estrago algum. No seu jeito de andar graciosa, como se o chão machucasse, parece que os seus pés apenas dançam e equilibram-se sobre uma bola gigante e que todos em potencial - eu em particular - dependem do seu rumo incerto acima dessa bola. Trazes o mundo para mim com seus passos de balé despojado, sempre com jeito de coisa nova, num sorriso de criança indefesa mas olhar de mulher decidida.
Na sua levada, até a vida se perde. Confunde o relógio. Poderia ser um erro cada passo seu - esse mundo tão esquisito.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

o que virá, antes de virar pó


Deixarei teus braços procurando os meus. Na cama só sobrará o cheiro do vinho, uma conversa banal, um conto qualquer sobre camafeus. Não te acordarei para poder ler teus sonhos pela manhã macia, sentir os primeiros raios do amanhecer me chamando para fora, me fazendo fogueira, me tecendo preces numa aurora qualquer. Não te ligarei, não te atenderei, não receberei tuas flores, teu vaso quebrado, teu olá desamparado de quem pensou o que dizer pelas últimas horas do dia, de quem não trabalhou a manhã inteira esperando cair a noite, que devorou as horas para que acelerasse o momento de ouvir minha voz ao telefone. Irei te dizer que não tenho tempo, mas não tenho pressa, que quero morno quando a brasa ferve nossos pensamentos, que a insanidade já me deixou caída num beco da rua augusta, que teus ombros não sustentarão minha dor quando esta me abraçar. Te direi, ou gritarei, melhor ainda, a plenos pulmões, que quero ar, não falta. Que minha história tem mais desdém que barca furada, telha rachada, gota de chuva pingando no meio da testa no sono tranqüilo. Te lançarei olhares, irei a jantares, recusarei convites para a noite acabar num adeus de olhos se trocando pelos versos. Serei versos, e toda sua. Te farei cartas como das antigas, anotarei seu destinatário, selarei com qualquer coisa o que vier à minha mente e te direi verdades tão inconseqüentes que meu rosto enrubescerá toda vez que te vir. Mas antes de tudo, quero capturar esses teus olhos de enchente pela madrugada. Quero ser a lua nessa tua maré beijando a areia dourada. Quero rimar na tua poesia, fazer do amor um jogo de esgrima, que me esquivo e me movo e me lanço para frente, para trás e perco por não entrar na tua dança, por fazer da minha esperança um pecado em te amar.

beatriz marques.

achei digno de compartilhar

terça-feira, 7 de agosto de 2012

rascunho

Contenta entre as veias o sabor dos carinhos enquanto estima a saudade futura, não dá.
Prepara a mala somente com o necessário e possível, impossível.
E vai atrás da experiência, do mundo correndo solto. Que medo.
Poderia ficar bem quietinho... mas adora correr. E ficar.

Leva no peito e pro mundo todas as contradições.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dor de amantes desencontrados


... e passou olhando para o prédio dela com um misto de ciúme e costume. Uma pontada no peito por ver-se de súbito desfalcado. Não fosse o orgulho, reconheceria a saudade. A altivez, sua armadura, o prevenia dos olhares alheios mas não o poupava de pagar com todas as insônias o que ele fizera e deixara de fazer. Uma luta para evitar a turbulência de um avião pousado num aeroporto em terremoto. Recolheu seus olhos vigilantes, bruxuleantes sob a mesma luz que já antes o iluminara alegre e ingênuo. Sentiu o nó na garganta que confundia o seu rumo e continuou andando, amputado.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Melhor era tudo se acabar

Ah, se não existisse o amor... Pagaria eu involuntário e à prazo o pecado do mundo com todas as insônias - nunca quitando a dívida.
Correria por aí a maldita cólera rasgando as nuvens para dilacerar o coração dos homens de bem.
Ante flores cansadas em jarros d'água, inúteis por desacreditarem do sentido do seu perfume, da sua aparência, eu veria meus sonhos transformados em vergonha.
Se não tivesse o amor...

sábado, 9 de junho de 2012

da estrutura dos retiros

Vai entender porque quando descanso entre as suas pernas o mundo prescinde de significados. Talvez os especialistas ou os mais vividos expliquem as contas pra um aconchego e seus momentos valerem mais que tudo. Não tem importância, penso. Levo o seu colo comigo pra passear pelo mundo. Levo no bolso esquerdo da blusa -lado do peito que bate-, levo nos braços, pra usar nas noites que me fizer falta o sorriso da musa. E levo nos olhos, pro mundo lá fora receber um pouco do que trago de melhor -a história.
E volto sorrindo, cheio de novidades, querendo o seu aconchego mais novo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

sublinhado pelo som de um piano

Vamos pintar as noites, deslizar o nosso jazz pelos telhados calados. Discutir o tom do céu, vamos procurar cadê a lua. Vamos existir de madrugada enquanto o mundo (que mundo?, sei lá), o mundo todo saboreia o coma pós uma meia rodada difícil do eixo da Terra. Difícil foi pra gente também (foi?). Bem mais complicado foi pra outrem. Mas deixa o ontem, vamos tentar aquela receita nova. E abrir o vinho, virar a taça de antes e dar espaço pro novo enquanto a gente se embriaga do passado, estamos sempre sob o efeito dele. Vamos deixar o novo e o velho se misturarem no copo e ver no que dá. Você admira psicologia? Mais uma coisa em comum... o quê? Você também frequentou aquele bar? Como foi que não nos encontramos antes? Penso que o destino quis ter certeza antes de fazer essa jogada... bem, tanto faz, diminui a luz da cozinha e vem sentar aqui... eu acabei de perder a fome.


Ao som de  Fantastic, That's You by Earl Hines on Grooveshark

sábado, 12 de maio de 2012

criador realizado em plena musa


completo sou eu
quando escrevo na minha inspiração
as inspirações que ela me dá.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Era

Era um menino que gostava de brincar com o seu lápis no papel. Desenhava palavras e as palavras desenhavam nuvens e tapetes mágicos que o levavam para passear nas partes mais doces que este mundo desconheceu. Outras vezes desenhava com as palavras desenhos feios pra se libertar, e se libertava desaprisionando desenhos que se queriam livres. Abria alas para os rabiscos bobos que não sentiam-se confortáveis dentro dele - o menino. Era um menino feito de rabiscos, necessitava o seu lápis e tinha amigos de papel que o consumiam demasiado.
"Um dia eu vou te dar um grande amor, um ideal pelo que viver e uma história que vai curar alguma alma adoentada que porventura te cruzar." Disse o menino ao seu pedaço de papel.

Alguém se habilita a continuar a história? Fazer o que quiser com ela e dar ponto final ou não. É só continuar nos comentários.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

descompensado - a minha ovelha feia

...Conhecendo-te sei que você dirá o que é isso, companheira, estava apenas de brincadeiras, não era para levar tão a sério. Eu Concluo sofridamente que não tens coração: no seu jeito infantil, obtuso, pensa que é brinquedo e quer o dos outros emprestado. Alguns até deixam na maior boa vontade, no maior interesse em despertar você. Você modela, cutuca, joga pro alto e quando cansa, malcriada criança, esquece de devolver. Com a perícia de um pirotécnico jogas com o calor alheio sem se queimar.
Larga num canto o músculo pulsando ainda, pedindo socorro, abandono de vítima.
penso: só brinca com o coração quem não tem.

Espasmódica transformista do diabo.
E o que vai te ensinar a tratar quem te ama, hão de sugerir opções diversas uns amigos do bar e do convento comigo concordando jamais.
Nenhuma puta que conheça todos os acordes que te fazem chorar.
Nenhuma santa adulta cravando uma faca no teu peito com o olhar de virgem maria.

Que você tenha os seus barbitúricos por perto, pela preservação do que há no além da sua janela.
(sic)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Contraditando


Ela tem um olhar risonho que eu já não sei se era pra ser proibido ou se deveria haver uma lei que comprometesse todo mundo a rir olhando daquele jeito pra alguém. Assim talvez esse todo mundo entendesse o desequilíbrio que me dá a minha pequena grande. Essa falta de chão que cativa e assusta. Esse permanente cheiro de coisa inédita. Permanente cheiro de coisa inédita. Permanente e inédito. Contraditório, penso. Seja como for, sigo descendo pra cima nas curvas desse sorriso. Subindo enquanto caio na nossa vertigem, afogamento ao avesso. Seguindo em frente de costas sem olhar pra trás.
Os seus olhos molham os meus, o nosso amor foi pintado pelo Escher.