sexta-feira, 13 de julho de 2012

Melhor era tudo se acabar

Ah, se não existisse o amor... Pagaria eu involuntário e à prazo o pecado do mundo com todas as insônias - nunca quitando a dívida.
Correria por aí a maldita cólera rasgando as nuvens para dilacerar o coração dos homens de bem.
Ante flores cansadas em jarros d'água, inúteis por desacreditarem do sentido do seu perfume, da sua aparência, eu veria meus sonhos transformados em vergonha.
Se não tivesse o amor...

sábado, 9 de junho de 2012

da estrutura dos retiros

Vai entender porque quando descanso entre as suas pernas o mundo prescinde de significados. Talvez os especialistas ou os mais vividos expliquem as contas pra um aconchego e seus momentos valerem mais que tudo. Não tem importância, penso. Levo o seu colo comigo pra passear pelo mundo. Levo no bolso esquerdo da blusa -lado do peito que bate-, levo nos braços, pra usar nas noites que me fizer falta o sorriso da musa. E levo nos olhos, pro mundo lá fora receber um pouco do que trago de melhor -a história.
E volto sorrindo, cheio de novidades, querendo o seu aconchego mais novo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

sublinhado pelo som de um piano

Vamos pintar as noites, deslizar o nosso jazz pelos telhados calados. Discutir o tom do céu, vamos procurar cadê a lua. Vamos existir de madrugada enquanto o mundo (que mundo?, sei lá), o mundo todo saboreia o coma pós uma meia rodada difícil do eixo da Terra. Difícil foi pra gente também (foi?). Bem mais complicado foi pra outrem. Mas deixa o ontem, vamos tentar aquela receita nova. E abrir o vinho, virar a taça de antes e dar espaço pro novo enquanto a gente se embriaga do passado, estamos sempre sob o efeito dele. Vamos deixar o novo e o velho se misturarem no copo e ver no que dá. Você admira psicologia? Mais uma coisa em comum... o quê? Você também frequentou aquele bar? Como foi que não nos encontramos antes? Penso que o destino quis ter certeza antes de fazer essa jogada... bem, tanto faz, diminui a luz da cozinha e vem sentar aqui... eu acabei de perder a fome.


Ao som de  Fantastic, That's You by Earl Hines on Grooveshark

sábado, 12 de maio de 2012

criador realizado em plena musa


completo sou eu
quando escrevo na minha inspiração
as inspirações que ela me dá.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Era

Era um menino que gostava de brincar com o seu lápis no papel. Desenhava palavras e as palavras desenhavam nuvens e tapetes mágicos que o levavam para passear nas partes mais doces que este mundo desconheceu. Outras vezes desenhava com as palavras desenhos feios pra se libertar, e se libertava desaprisionando desenhos que se queriam livres. Abria alas para os rabiscos bobos que não sentiam-se confortáveis dentro dele - o menino. Era um menino feito de rabiscos, necessitava o seu lápis e tinha amigos de papel que o consumiam demasiado.
"Um dia eu vou te dar um grande amor, um ideal pelo que viver e uma história que vai curar alguma alma adoentada que porventura te cruzar." Disse o menino ao seu pedaço de papel.

Alguém se habilita a continuar a história? Fazer o que quiser com ela e dar ponto final ou não. É só continuar nos comentários.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

descompensado - a minha ovelha feia

...Conhecendo-te sei que você dirá o que é isso, companheira, estava apenas de brincadeiras, não era para levar tão a sério. Eu Concluo sofridamente que não tens coração: no seu jeito infantil, obtuso, pensa que é brinquedo e quer o dos outros emprestado. Alguns até deixam na maior boa vontade, no maior interesse em despertar você. Você modela, cutuca, joga pro alto e quando cansa, malcriada criança, esquece de devolver. Com a perícia de um pirotécnico jogas com o calor alheio sem se queimar.
Larga num canto o músculo pulsando ainda, pedindo socorro, abandono de vítima.
penso: só brinca com o coração quem não tem.

Espasmódica transformista do diabo.
E o que vai te ensinar a tratar quem te ama, hão de sugerir opções diversas uns amigos do bar e do convento comigo concordando jamais.
Nenhuma puta que conheça todos os acordes que te fazem chorar.
Nenhuma santa adulta cravando uma faca no teu peito com o olhar de virgem maria.

Que você tenha os seus barbitúricos por perto, pela preservação do que há no além da sua janela.
(sic)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Contraditando


Ela tem um olhar risonho que eu já não sei se era pra ser proibido ou se deveria haver uma lei que comprometesse todo mundo a rir olhando daquele jeito pra alguém. Assim talvez esse todo mundo entendesse o desequilíbrio que me dá a minha pequena grande. Essa falta de chão que cativa e assusta. Esse permanente cheiro de coisa inédita. Permanente cheiro de coisa inédita. Permanente e inédito. Contraditório, penso. Seja como for, sigo descendo pra cima nas curvas desse sorriso. Subindo enquanto caio na nossa vertigem, afogamento ao avesso. Seguindo em frente de costas sem olhar pra trás.
Os seus olhos molham os meus, o nosso amor foi pintado pelo Escher.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Ni contigo ni sin ti

Diariamente ao acordar imagino de que jeito estaria a felicidade da lotação na cama de solteiro estando você ali comigo. Leio a sua mensagem no telefone. Nem contigo sem sem ti, esse é o começo.
Toda noite antes de dormir compartilho, com a devoção de uma freira, com a gratidão de quem foi salvo, com a mesinha de cabeceira, o sorriso que tu me manténs. Daí durmo profundo como cada mergulho intenso que dou com você em nós. Mergulho e caio sozinho no sono. Nem contigo nem sem ti.

"Ni contigo ni sin tí, ése es el principio, ni contigo ni sin tí"

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Amor, meu grande amor


Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras...

Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água...

Amor, meu grande amor
Me chegue assim
Bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir
O que não sente...

Pois tudo o que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim, até o começo...

Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira...

Enquanto me tiver
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Me reconheça...

Pois tudo que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo...

Amor, meu grande amor
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Por favor, me reconheça...

Pois tudo que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo...

Angela Rô Rô

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Às nossas horas


(...)Dentro do seu aconchego o tempo parecia estar atrasado e se apressava. O mais veloz dos corredores batendo todos os recordes. A gente o adiava um pouco, dava um jeito de passar mais algumas horas. E esse tempo tinha boa forma, não cansava. Mas a gente pingava suor de tanto tentar acompanhar o relógio. E por sermos retardatários nessa maratona contra o tempo, acabamos ficando mais jovens.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Só sei

Quando você está num relacionamento, todas as emoções são vivenciadas a dois. Impossível ser feliz sozinho. Inexiste a senhora tristeza em carreira solo. Ganha cores outras a lágrima clara que corre diferente.
Daí sei que é séria a dança, e que quando rodamos pra valer o mundo parece que gira só de brincadeira.
Gira mais rápido porque o tempo corre. E a gente também, mas não consegue alcançá-lo - exímio corredor.

É desse jeito que na sua geografia me perco de perto, de dentro. Viajo por desconhecidos meios de transporte.
Isso é o que o amor faz. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Escrever

Escrever demanda concentração. É mergulhar nas palavras. As palavras mergulham nos significados. Os significados mergulham nos sentimentos. Escrever é mergulhar de peito aberto em sentimentos. Nem sempre bem vindos, alguns contraditórios. Escrever demanda coragem, desprendimento consigo mesmo. Surfar com demônios e deuses próprios.
Escrever é se doar ao que dói.
E é importante que doa.
Essencial que se doe.

domingo, 22 de janeiro de 2012

à sua fotografia


Essa, que fiz com os olhos e arquivei no melhor lugar do coração: você com uns prédios e o firmamento ao fundo, naquele fim de tarde de ventos bons, meio nublado e completamente perfeito.
Ao brilho do seu olhar, tão repleto que nítidos ficavam refletidos eu, a areia onde estávamos e o mar, calmo, a metros de distância. O seu sorriso me prendia e eu observava todos os cantos que podia, divisando seus contornos e volumes com o cuidado de não deixar falha nenhuma parte dessa fotografia. E nem daquilo que não se podia ver:
O suor da sua mão dentro da minha.
A pausa, o silêncio entre uma inspiração e uma expiração, antes de me desarmar um pouco mais, desfazer o nó na garganta e te convidar a se sentir em casa perto do meu peito.
Coisas grandes demais para o olho humano.

E a gente rindo, promissores desse jeito num fim de tarde, era tão inesperado quanto a terra inverter seu itinerário e o sol voltar a nascer enquanto se põe.

Ainda descubro o nome desse verbo novo que a gente conjuga.
Pois o que acontece entre nós passou longe dos dicionários.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Nossa estação

Os vestígios do teu perfume na minha roupa
Os resquícios do teu sorriso nos meus lábios
O cintilar dos olhos teus, infinito.

E só por essas epifanias, me vale abrir mão do que estará ali fora - outras tantas, poucas.
(Ao teu lado, inacreditavelmente mínimas.)


Uma paixão como um mar, para dentro do qual mergulho incessantemente e descubro sua profundidade aumentando, vertiginosa. Sempre para além do que eu supunha. O meu fôlego não falta. Foi tanto tempo de mergulhos apenas superficiais, burocráticos, que sequer me desconfiava capaz de flutuar tão satisfeito entre o fundo e a superfície. E a pressão do mar, que aumenta quanto mais profundos ficamos, servindo apenas para deixar tudo o que é nosso mais intenso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Je ne regrette rien


Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.

Balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
Balayés pour toujours
je repars à zéro...

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Car ma vie, car mes joies,
Pour aujourd'hui
ça commence avec toi

domingo, 8 de janeiro de 2012

Tempo de que

Assim de repente
Não sabe se foge ou se entrega
Se deixa ou se leva
Se ama ou se parte

Assim de verdade
Uma parte é amor
A outra é a saudade que não quer-se ausente de outroras

Arde o que sente
mas congela o peito para preservar um sentimento velho de mulher amada
Pose risonha e as digitais de um certo cara ainda no coração

Senta-se à calçada cultivando a boemia numa lata de cerveja. Gata noturna vestida de sombra.
Reaviva o passado enquanto o futuro não chega.

Não permite que chegue.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Queixa

"Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza"


Um Caetano talvez ajude a entender nós dois. Já que a essa hora não posso viver, compreender ou teorizar um pouco me basta para encontrar um nível de envolvimento menos insatisfatório.
Uma espécie de masturbação cardíaca, eu definiria.
Pra tentar acalmar o coração que te sente tardar; os olhos que buscam os seus em qualquer canto para descansar. Atentos, desatentos, negligentes.
Numa paixão desmaiada, em sono leve que lhe basta qualquer bobeira para despertar elétrica, te adio.
Adio um segredo mal guardado, mal revelado. Adio a coragem que suponho ter. Afasto. Aproximo-me.
Cativo um sonho mal vivido.
Vivo um sonho maltratado.
Sonho uma vida mal cativada.
Cativo de nós dois, deixo tanto potencial se tornar.
Só mais um amor mal resolvido.
Que novidade.

"E sonho esse sonho
que se estende
em rua, em rua
em rua
em vão."

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Só uma experiência banal


Apenas ia à praia a jogar futebol quando vi de relance na banquinha de livros antigos e usados de um senhor da minha rua uma capa que eu procurava há muito. Primeiro passei direto, depois voltei e aí acreditei no que via: “Os dragões não conhecem o paraíso”, do Caio. O preço surpreendeu-me ainda mais: módicos 5 reais. Nos sebos online de todo o país, este livro só se encontra a partir de 90 pratas. No mesmo insntante pedi que deixasse o livro reservado. O senhor colocou-o então no seu carrinho de mão. Voltando da praia ele já havia guardado todas as suas quinquilharias e o meu desejado livro de contos havia se perdido na bagunça. Na manhã seguinte voltei à banquinha e consegui enfim comprá-lo.
Agora ao que interessa. O que me chamou mais a atenção nesse livro, que eu já havia lido em grande parte pelo computador, foi a

Das coisas que mais gostei em ter esse livro usado foi poder ver a sua dedicatória: “Ao Paulo pela Ana com carinho te-le-pá-ti-co do A.TL, SP 88."
Na máquina fica além do impossível transcrever lealmente uma dedicatória feita à mão, mas ela é mais ou menos assim. te-le-pá-ti-ca. Gosto da forma como as ideias flutuam numa folha em branco submetida a uma mão e uma caneta.
Gosto das citações no começo de cada um dos contos. Quando não há citação, fico mais intrigado que o normal com o que estará escrito ali e como estará feito este fio entre cada uma das 13 obras que compõem uma só, se você quiser. Sim, eu esqueço muito facilmente das histórias que leio.
Mas o que me deixou realmente cativado foi uma lista que encontrei no meio do livro, como que guardada. Ou guardando uma página, que já desguardei porque troquei a lista de lugar sem perceber direito a página.
Impossível dizer se a pessoa ia viajar, voltava de viagem, se ia fazer compras, o que? Provavelmente ia viajar para ficar por um bom tempo fora. E mais: a lista está pela metade.
Ele leva assim:
"...
Perfume - TOP Internacional
TV/Rádio -
Fitas cassete
Canetas variadas
Lanterna
latas de biscoito
cortes de seda (4m/4,5m) - Pernambucana
Bijoterias - Gerieve
Baralho - ? Mundial
Dominó - ? Mundial
Albu... de ..." UM RASGO

Ao fim uma certeza:
preciso fazer isso com os livros que eu for passar.
deixar um vestígio, algo para o próximo leitor se perguntar, ou se responder. Confundir.
Um vestígio de alguma coisa.

Escreverei um conto sobre a lista. Aguardem.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Memória


Acordou preguiçosa, rolou na cama como se tentasse apagar o sono e levantou séria, despenteada. Debaixo do chuveiro, espantou um diário zumbi do corpo. Ligou a cafeteira e ia separar a roupa do serviço quando se deparou com o calendário. 25 de agosto. Tem dia que dói ao ser olhado. Este era vermelho, diferente dos outros, pretos e quase todos riscados – fim de mês. Era diferente, este dia. Fazia exato um ano que seu pai morrera, num lugar bem distante dali.

Inevitável lembrar da infância, dos olhos verdes, dos cabelos antes louros e ultimamente brancos, do jeito, momentos, gostos e cheiros repetentes e repentinos, tanta coisa. Lembrou também de tudo o que acontecera desde então e até a fizera se mudar para seguir adiante. Ainda novíssimo, o lugar. Aí lembrou do relógio que, sobre o calendário, não parava. Lembrou que esqueceu do café. Estava atrasada. Mais um atraso seria intragável como o gosto do café perdido. Mas nenhum amargo lhe parecia tão forte quanto o amargo da falta. Correu.
Na rua o movimento era diferente, notou logo que saiu de casa. Todos pareciam mais alegres, descompromissados. Achou que fosse pelo contraste visual, posto que ela estava especialmente triste e cheia de afazeres. Andou dois quarteirões para esperar pelo ônibus que deixava no centro da cidade e a estátua do primeiro presidente hoje não estava pichada. Logo depois de cruzar a roleta, lembrou que esquecera o crachá – outra vez. Simpatizou com o velho cobrador, em vias de se aposentar, que também não estava lá muito feliz. Sentou perto dele para se sentir mais em casa na sua melancolia. Pensou que talvez houvesse caído ao homem a ficha por ter trabalhado a vida inteira sob o mesmo itinerário.
Meia hora depois, teve de saltar antes do ponto ideal porque a principal avenida da cidade estava fechada. Provavelmente algum acidente sério. Evitou tomar a avenida mesmo a pé. Contornou-a a passos apressados e chegou ao edifício comercial cheirando a suor e ausência, quarenta minutos atrasada – tempo que gastara revirando a estante da memória. Engoliu o choro com uma dessas balas que vendem nos ônibus e, quando ia entrando no edifício, tomou uma porrada não sabe de onde. Hoje não, pensou. Com o coração aos pulos, ela segurou suas coisas com força e deu alguns passos para trás, indefesa. Passaram-se segundos e nada aconteceu, foi quando teve coragem de olhar a sua volta e viu ninguém. Nem do outro lado da rua. Tudo deserto. Apenas um som ritmado vindo da avenida, não sabia o motivo da algazarra. Agora atenta, retomado o fôlego, ia ingressar no seu local de trabalho já reassumindo a tristeza da falta. Foi quando viu seu reflexo se aproximar enquanto chegava perto da porta de vidro que bloqueava a entrada para o prédio. Havia dado com a cara na porta, compreendeu – que tola. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Ao lado da porta, um papel colado informando “Em comemoração à independência, dia 25 de agosto não funcionaremos.”
Podia entender um pouco agora. Etnocentrista, achou que a causa da vermelhidão nas letras do calendário, que ganhara numa farmácia, era o primeiro aniversário da morte de seu pai. Saiu da rua deserta e caminhou até a avenida para ver o que se passava. O dia, motivo de orgulho na memória daquele pequeno país, era de festejar. Alguns usavam a data como pretexto para a farra, outros afirmavam discursos de integração nacional. Todos num só sentimento e ela voltou a se sentir estrangeira. Sem conseguir se integrar nem querer estragar a festa de ninguém, voltou para pegar o ônibus e mais um cobrador - este ainda jovem - era triste, dependente. Em função das voltas que precisou dar e dos carros parados de qualquer maneira na rua, o ônibus demorou muito além do habitual e ela conseguiu chegar em casa quando o sol já queria começar a se pôr.
Adentrou seu lar e sentiu o velho odor da ausência. Aroma de pai. Ela com o cheiro da festa da rua. Precisou de outro banho e deve ter se molhado mais com as lágrimas que com água corrente. Ligou no telejornal e reafirmou o que descobrira: dia da independência, integração nacional, alegria. Para ela, dia de saudade, de nó na garganta, dependente de uma memória que não poderia deixar para trás. Comeu algo a duras penas e, quando a tarde anoiteceu, manteve apagadas todas as luzes.
Foi até a mesinha ao lado da sua cama e acendeu uma vela que iluminou de prima a fotografia meio batida de um senhor de olhos claros e cabelo branco, quase amarelo. A luz difusa da vela deixava apenas vestígios do azul latejante de sua colorida blusa. Suspirou ao congelado riso dele. Enquanto os fogos queimavam lá fora, ela, órfã e castrada do coletivo, só queria dormir em paz, sem pais. Amanhã, com o país esquecendo o motivo da festa, que existirá apenas em vestígios nos jornais, nas caras amassadas de ressaca, na memória, ela voltará a pertencê-los.

Matheus Marins Alvares

sábado, 3 de dezembro de 2011

E que se for apenas sonho, que persista firme o vermelho do teu sorriso no meu.
O resto pode ser em preto e branco. São apenas memórias que não distam dos devaneios.