domingo, 5 de fevereiro de 2012
Escrever
Escrever é se doar ao que dói.
E é importante que doa.
Essencial que se doe.
domingo, 22 de janeiro de 2012
à sua fotografia
Essa, que fiz com os olhos e arquivei no melhor lugar do coração: você com uns prédios e o firmamento ao fundo, naquele fim de tarde de ventos bons, meio nublado e completamente perfeito.
Ao brilho do seu olhar, tão repleto que nítidos ficavam refletidos eu, a areia onde estávamos e o mar, calmo, a metros de distância. O seu sorriso me prendia e eu observava todos os cantos que podia, divisando seus contornos e volumes com o cuidado de não deixar falha nenhuma parte dessa fotografia. E nem daquilo que não se podia ver:
O suor da sua mão dentro da minha.
A pausa, o silêncio entre uma inspiração e uma expiração, antes de me desarmar um pouco mais, desfazer o nó na garganta e te convidar a se sentir em casa perto do meu peito.
Coisas grandes demais para o olho humano.
E a gente rindo, promissores desse jeito num fim de tarde, era tão inesperado quanto a terra inverter seu itinerário e o sol voltar a nascer enquanto se põe.
Ainda descubro o nome desse verbo novo que a gente conjuga.
Pois o que acontece entre nós passou longe dos dicionários.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Nossa estação
Os resquícios do teu sorriso nos meus lábios
O cintilar dos olhos teus, infinito.
E só por essas epifanias, me vale abrir mão do que estará ali fora - outras tantas, poucas.
(Ao teu lado, inacreditavelmente mínimas.)
Uma paixão como um mar, para dentro do qual mergulho incessantemente e descubro sua profundidade aumentando, vertiginosa. Sempre para além do que eu supunha. O meu fôlego não falta. Foi tanto tempo de mergulhos apenas superficiais, burocráticos, que sequer me desconfiava capaz de flutuar tão satisfeito entre o fundo e a superfície. E a pressão do mar, que aumenta quanto mais profundos ficamos, servindo apenas para deixar tudo o que é nosso mais intenso.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Je ne regrette rien
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.
Avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.
Balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
Balayés pour toujours
je repars à zéro...
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Car ma vie, car mes joies,
Pour aujourd'hui
ça commence avec toi
domingo, 8 de janeiro de 2012
Tempo de que
Não sabe se foge ou se entrega
Se deixa ou se leva
Se ama ou se parte
Assim de verdade
Uma parte é amor
A outra é a saudade que não quer-se ausente de outroras
Arde o que sente
mas congela o peito para preservar um sentimento velho de mulher amada
Pose risonha e as digitais de um certo cara ainda no coração
Senta-se à calçada cultivando a boemia numa lata de cerveja. Gata noturna vestida de sombra.
Reaviva o passado enquanto o futuro não chega.
Não permite que chegue.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Queixa
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza"
Um Caetano talvez ajude a entender nós dois. Já que a essa hora não posso viver, compreender ou teorizar um pouco me basta para encontrar um nível de envolvimento menos insatisfatório.
Uma espécie de masturbação cardíaca, eu definiria.
Pra tentar acalmar o coração que te sente tardar; os olhos que buscam os seus em qualquer canto para descansar. Atentos, desatentos, negligentes.
Numa paixão desmaiada, em sono leve que lhe basta qualquer bobeira para despertar elétrica, te adio.
Adio um segredo mal guardado, mal revelado. Adio a coragem que suponho ter. Afasto. Aproximo-me.
Cativo um sonho mal vivido.
Vivo um sonho maltratado.
Sonho uma vida mal cativada.
Cativo de nós dois, deixo tanto potencial se tornar.
Só mais um amor mal resolvido.
Que novidade.
"E sonho esse sonho
que se estende
em rua, em rua
em rua
em vão."
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Só uma experiência banal
domingo, 11 de dezembro de 2011
Memória
Acordou preguiçosa, rolou na cama como se tentasse apagar o sono e levantou séria, despenteada. Debaixo do chuveiro, espantou um diário zumbi do corpo. Ligou a cafeteira e ia separar a roupa do serviço quando se deparou com o calendário. 25 de agosto. Tem dia que dói ao ser olhado. Este era vermelho, diferente dos outros, pretos e quase todos riscados – fim de mês. Era diferente, este dia. Fazia exato um ano que seu pai morrera, num lugar bem distante dali.
Foi até a mesinha ao lado da sua cama e acendeu uma vela que iluminou de prima a fotografia meio batida de um senhor de olhos claros e cabelo branco, quase amarelo. A luz difusa da vela deixava apenas vestígios do azul latejante de sua colorida blusa. Suspirou ao congelado riso dele. Enquanto os fogos queimavam lá fora, ela, órfã e castrada do coletivo, só queria dormir em paz, sem pais. Amanhã, com o país esquecendo o motivo da festa, que existirá apenas em vestígios nos jornais, nas caras amassadas de ressaca, na memória, ela voltará a pertencê-los.
sábado, 3 de dezembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
Nada por mim
Acostumei-me ao teu corpo como por sobrevivência se adapta um bicho a um novo habitat e, por assim dizer, acabei tomando gosto pelo seu território. Primeiro procurei por instinto, a sabor ou dissabor, a qualquer custo suprir-te do que querias de mim. Só por fazê-la satisfeita assim, a troco de teu sorriso – em segredo: só o que eu queria.
Depois, pelos termos do nosso amor didático, comecei a suspeitar as maneiras de te saborear. Como se eu bicho aprendesse a comê-la feito fruta inédita. Estreando pela insípida casca e insistentemente passando a um curioso bagaço onde você me guiava para o seu íntimo. Daí finalmente, conduzido pelos seus calores, desvendava cada vez melhor o jeito certo de te provar. Na minha irracional sede, te devorava a polpa e engolia sorridente o caroço até que você pedisse trégua. Foram assim noites, intervalos, horários de almoço a te tomar enquanto eu passava de bicho a humano e então a dependente.
Apaixonei-me não só pelo sorriso, mas pelos caminhos para fazê-la sorrir. Mantendo o segredo, fiz da sua delícia o meu motivo – afinal, o que é melhor que ver a pessoa amada feliz?.
Não custou até que eu compreendesse o meu papel ao pé da cama. Até você me sorrir com o sorriso que eu te ensinara a sorrir e me propor que a deixasse em paz.
- Não faça assim.
Matheus
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Ainda é tarde
Ela falou você tem medo
Aí eu disse quem tem medo é você.
Quem tinha medo era eu.
cedo, cedo, cedo, cedo,
tarde.
domingo, 30 de outubro de 2011
saroH
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O Pintor
Eu disse que tenho uma poltrona porque sua relação com a janela é das mais gostosas. Dá um ângulo pelo qual se vê mais céu e árvore que prédios e fios. A arte do homem aqui é antagonista à do céu. Exceto pelas vezes que o homem resolve criar janelas. Adoraria uma janela maior, mas dá pra ser feliz com essa daqui.
Aqui deitado na sala, observando as pinturas ao vivo do meu artista favorito, eu tenho a deliciosa sensação de não precisar de mais nada. Colocaria uma música, mas respeito o trabalho dos pássaros. Pra uma cidade de mais de 500 mil humanos, até que eles fazem mais barulho que o comum na minha casa. Quase não ouço os longínquos motores. Acho motores um desacato aos ouvidos.
Agora o céu desenhou um sujeito parecido com papai noel, só a cabeça, gorro e barba. Será que alguém mais percebeu?
Quando falam mal do seu trabalho, o céu costuma chorar, o que molha todo mundo. Quando o céu entra em depressão, uma galera pode ficar sem casa. É a natureza cobrando as contas do dito progresso. Talvez para as pessoas erradas. Cobrar de quem não tem não parece justo. Mas o céu contiua fazendo o seu trabalho artístico pra quem tem e pra quem deve.
Penso que o céu deve ter um bom patrocinador de tintas azuis.
Acenderam as luzes amarelas da rua, o dia está chegando ao fim. O céu tomou um ar triste.
Mas hoje não vai chover.
Matheus Marins
24/10/11
domingo, 16 de outubro de 2011
Improváveis
Matheus
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Sobre interpretar o tempo e observar o seu trabalho silencioso
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
é melhor que caminhar vazio
sábado, 30 de julho de 2011
sonhos
Ato contínuo ao de acordar é esfarrapar sonhos em busca de sabores do que se vivia há instantes atrás. Até que se acha um gostinho, mas o terreno dos sonhos costuma empoeirar num instante... devaneios moleques, se desfazem, se refazem, repensam, desconstróem, criam, quebram, misturam... sem precisar de explicar. É preciso ser sagaz logo cedo se quiser saber da história mais ou menos certa.
O que fascina mais é que quando acordo de um sonho me vejo contando uma história pra mim outra vez... e de vez em quando conto tão bem que até me engano em onde o conto foi de pegar e onde foi de fantasiar.
Porém, o que perturba mais é quando esqueço do que me contei - sempre esqueço, pelo menos a maior parte - e não tenho mais pra quem perguntar, porque eu esqueci.
Dos sonhos, não costumo lembrar muito das cores, nem das falas. O enredo é vacilante... mas algumas partes sempre ficam marcadas. Exemplo: geralmente não esqueço dos sorrisos. São importantes ali. Não só ali! Algumas bocas, quando riem, podem até reverter pesadelo em sonho.
É bom que posso carregar comigo estes risos todos.
Acho bonito de morrer.
Vamos viver este mundo!
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Amor bom é amor facinho
Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho - esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?
Eu suspeito que não.
Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói.
Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade de lutadores, não somos? Temos de nos esforçar para obter recompensas. As coisas que realmente valem a pena são obtidas à duras penas. E por aí vai. De tanto ouvir essa conversa - na escola, no esporte, no escritório - levamos seus pressupostos para a vida afetiva. Acabamos acreditando que também no terreno do afeto deveríamos ser capazes de lutar, sofrer e triunfar. Precisamos de conquistas épicas para contar no jantar de domingo. Se for fácil demais, não vale. Amor assim não tem graça, diz um amigo meu. Será mesmo?
Minha experiência sugere o contrário.
Desde a adolescência, e no transcorrer da vida adulta, todas as mulheres importantes me caíram do céu. A moça que vomitou no meu pé na festa do centro acadêmico e me levou para dormir na sala da casa dela. Casamos. A garota de olhos tristes que eu conheci na porta do cinema e meia hora depois tomava o meu sorvete. Quase casamos? A mulher cujo nome eu perguntei na lanchonete do trabalho e 24 horas depois me chamou para uma festa. A menina do interior que resolveu dançar comigo num impulso. Nenhuma delas foi seduzida, conquistada ou convencida a gostar de mim. Elas tomaram a iniciativa – ou retribuíram sem hesitar a atenção que eu dei a elas.
Toda vez que eu insisti com quem não estava interessada deu errado. Toda vez que tentei escalar o muro da indiferença foi inútil. Ou descobri que do outro lado não havia nada. Na minha experiência, amor é um território em que coragem e a iniciativa são premiadas, mas empenho, persistência e determinação nunca trouxeram resultado.
Relato essa experiência para discutir uma questão que me parece da maior gravidade: o quanto deveríamos insistir em obter a atenção de uma pessoa que não parece retribuir os nossos sentimos?
Quem está emocionalmente disponível lida com esse tipo de dilema o tempo todo. Você conhece a figura, acha bacana, liga uns dias depois e ela não atende e nem liga de volta. O que fazer? Você sai com a pessoa, acha ela o máximo, tenta um segundo encontro e ela reluta em marcar a data. Como proceder a partir daí? Você começou uma relação, está se apaixonando, mas a outra parte, um belo dia, deixa de retornar seus telefonemas. O que se faz? Você está apaixonado ou apaixonada, levou um pé na bunda e mal consegue respirar. É o caso de tentar reconquistar ou seria melhor proteger-se e ajudar o sentimento a morrer?
Todas essas situações conduzem à mesma escolha: insistir ou desistir?
Quem acha que o amor é um campo de batalha geralmente opta pela insistência. Quem acha que ele é uma ocorrência espontânea tende a escolher a desistência (embora isso pareça feio). Na prática, como não temos 100% de certeza sobre as coisas, e como não nos controlamos 100%, oscilamos entre uma e outra posição, ao sabor das circunstâncias e do tamanho do envolvimento. Mas a maioria de nós, mesmo de forma inconsciente, traça um limite para o quanto se empenhar (ou rastejar) num caso desses. Quem não tem limites sofre além da conta – e frequentemente faz papel de bobo, com resultados pífios.
Uma das minhas teorias favoritas é que mesmo que a pessoa ceda a um assédio longo e custoso a relação estará envenenada. Pela simples razão de que ninguém é esnobado por muito tempo ou de forma muito ostensiva sem desenvolver ressentimentos. E ressentimentos não se dissipam. Eles ficam e cobram um preço. Cedo ou tarde a conta chega. E o tipo de personalidade que insiste demais numa conquista pode estar movida por motivos errados: o interesse é pela pessoa ou pela dificuldade? É um caso de amor ou de amor próprio?
Ser amado de graça, por outro lado, não tem preço. É a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (no trabalho, na balada, nas férias, no churrasco, na casa do amigo) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações? Neste momento eu não consigo me lembrar de nada.
Ivan Martins