sábado, 11 de junho de 2011

Intro

Do jeito dele de chegar olhando bonito pros outros. Nem de baixo nem de cima, mas pelo mesmo nível, mostrando que não se considera melhor que ninguém. Um olhar consciente, interessado e interessante. Sabido de que nem tudo que ver vá ter uma explicação ou lógica. E despreocupado de buscar realidade em tudo. Finalmente, um olhar sem localização exata, porque às vezes enxergava por outros meios o que não era visível aos olhos. E um olhar verdadeiro, um mergulho em sabores de estrada, de amigos, de noites quentes, de corações partidos. Um olhar interminável, motivo pelo qual não consigo terminar esta descrição. Um olhar injustiçado pelas palavras que uso para descrevê-lo, posto que não poderiam nunca ser repetidas no mesmo texto, uma vez que também o seu olhar jamais se repete.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Reflexão de segunda


Segundas feiras sabem ser duras. Na garganta resiste um resto de perda, de álcool do final de semana. E o corpo já quase inerte segue adiante como que sem sentir o mundo batendo a cada passo. A cabeça, adormecida dos demônios da vida, é simples. Direta ao ponto. Na segunda não podemos com spam, com filas, com esperar pelo troco. É como um carro sem freio que queremos parar após tê-lo acelerado demais. Quase sem combustível, a gente tira o pé do acelerador e apenas assiste, torce para não bater em nada, para não incomodar nem ser incomodado. Depois, quando vamos parando, quando o dia vai terminando, talvez venha pequeno um impulso de movimento, ainda vagaroso, ainda preguiçoso, quase indiferente.

Matheus

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Busca Implacável

Amanhecia. E porque amanhecia ele precisava fazer tudo novamente: cheirar bem, vestir uma roupa limpa, não se atrasar para bater o cartão... Se ele não cumprira o dever estabelecido para a noite –dormir-, não importava. E não o cumpria há quatro dias. A sensação era de que não sonhava há séculos. Não conseguia sonhar, nem acordado. No apartamento agora vazio, vendo a cidade de São Paulo pelo 13º andar, olhava pela janela só pra ver se não achava um resto de sonho expulso por algum cidadão desnorteado pelo despertador. Depois, olhava janela abaixo por alguns minutos mas acabava concluindo: “saída pra covardes”. Fechava a cortina para abafar a realidade e ia preparar seu café. Muitó pó, água quase nenhuma. Ficava um líquido meio poroso, amargo independente de quanto açúcar colocava. É assim que ele gostava. Depois de uma dose dessas, molhava as mãos na água corrente e apertava os dedos gelados contra as pálpebras: “Eles jamais me derrubarão”. O gelado não estava só nos dedos, estava na alma e nada nem aquele café quente consegue esquentar.

Passa noite, dia, madrugada e a vida dele continua fora da órbita, imersa naquele caos, tão familiar. Levanta pesado para tentar viver mais um dia, nos olhos o disfarce de alegria.
Não agüentava o peso.
Anos se passaram enquanto ele tentou se encaixar. Começou a caçar um destino, importância demais para algum lugar suportar... Pretendia compensar o resto de vida.
Mas na mochila....Ele já sabia o que precisa levar. Pegou alguns clássicos, outros livros ainda não lidos. Não queria levar nada da sua vida antiga....Talvez levasse só as idéias. Levou 2 mudas de roupas, um casaco e algumas cuecas.

Ainda não podia supor para onde ia, nem quando ia voltar. Escreveu bem rápido um bilhete e prendeu na porta. Saiu, naquele horário habitual, no seu mundo ainda era dia.
Pegou o ipod queria uma música. Não escolheu nada. Não era bom com escolhas, nada parecia servir para aquele momento.
Desceu a Augusta hesitando se devia continuar, cogitou voltar correndo e se esconder debaixo das cobertas mas seu pensamento gritava ‘’você não pertence a este lugar’’
Chegou no ponto e o vento da madrugada batia nos seus cabelos, a cidade agora parecia tão diferente, parecia mais real.
Pegou o primeiro ônibus rumo ao aeroporto.



Matheus e Isabelle

domingo, 15 de maio de 2011

Um pedaço que falta

A única pista que eu tinha dele era o envelope com o endereço de Porto Alegre. Encontrara, entre as bagunças da sala, uma carta de 98 nunca respondida. E você imagina o que treze anos não fazem... Muito maior essa barreira temporal que a quilometragem infinda entre Rio de Janeiro e POA. E por falar assim, supõe-se que eu queira reencontrá-lo. Não sei. Nunca soube exatamente sobre nada na vida. Dou os passos como um carro em alta estrada pela noite: enxergo um par de metros à frente e vou atropelando o asfalto sem ver placa, sem querer chegar. Foi assim sem saber que, por uma linha me conduzindo no caminho ou só por mudar a rotina no feriado, comprei passagem para Porto Alegre e pedi a um amigo de lá um pouso para estes dias. O envelope na mala.
Do alto do avião vi um rio, mentiroso, que corria para o mar. Se fazia de manso mas não era. Também imaginei o clima, mentiroso. Um frio sem fim no primeiro passo fora do avião, apesar do sol. Mentiroso também eu, logo entendi a linha que me guiava. Torta de saudade. E eu sem responder uma carta. Ele deve ter ficado ferido e resolvido não enviar mais nada. Vai ver até me esqueceu.
Já hospedado, anotei no celular o residencial do meu amigo como "Casa". Nada mais justo. Saímos com um pessoal à noite do primeiro dia lá. Nada demais, com exceção ao caminho até um bar que visitamos. Bela cidade. Queria vê-la de dia também. Acho que só se conhece um lugar depois de presenciar suas formas às claras e às escuras. Assim, amanhecendo no prédio, deixei um bilhete e fui. Mesmo rumo, belezas, mas, não sei a partir de quando, me desvirtuei do caminho e dei na rua Manuel de Barros, quando era para ser Almirante Barroco. Por sorte carregava um mapa. E há de ser ridículo que, investigando os bolsos, descobri ter confundido o mapa com o envelope. Ainda mais ridículo o fato de que o endereço no envelope era da rua Manuel de Barros! Irreversível. A passos largos fui até o número 83 -do envelope. E hesitei, senti vergonha. Vi se ninguém passava pela rua e me apoiei no murinho da casa para espiar. Isso bastou para um mentiroso pastor alemão - era para ser dócil - do quintal ladrar ensandecido, tentando me atacar e despertando os cães da vizinhança toda, que despertavam suas respectivas vizinhanças da mesma forma. E assim parece que toda cidade ainda latia quando desci do táxi na porta do prédio do meu amigo. Subi aos sufocos para um banho. Limpo, menos assustado, deitei no sofá e cadê o meu celular? Provavelmente pela bagunça da mala. Do número de casa, liguei e esperei o som sair debaixo das roupas, talvez. O som não veio, mas chamava. Permaneci na linha até que
- Alô.
Reconheço instantaneamente a voz madura, meio grave, meio gasta do tempo, da vida. Gelado, não consigo responder.
- Alô, tem alguém? Achei este celular na rua, me ouve? Olha, gente, eu desligo.
Então respondo por reflexo, tremido de culpa.
- Papai, sou eu.



Matheus, 06/05/11

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ect

Desculpe a demora em escrever. Mas te conhecendo a fundo como suspeito conhecer, sabia que você me esperaria com aquele velho otimismo quase clichê:
- "se já esperei por ele tanto, tanto, tanto, quer dizer que não vou ter que esperar mais muita coisa. quanto mais eu espero, menos eu vou ter que esperar. é."

Desculpe também essa língua solta, meio sincera demais. As palavras devem chegar aí suadas de tanto correr, que elas estão anos atrasadas.

Mas olha, achava que te esquecia com o tempo. Que nosso amor seria como um sol se pondo, bonito de doer, porém efêmero e abrindo as portas para a escuridão. Por isso quis congelar o pôr do sol e guardá-lo no bolso assim como estava: lindo, inofensivo. Talvez agora lendo você ria, divertida, lembrando do meu medo do escuro quando eu pedia para deixar uma brecha da porta aberta vazando luz pra dentro do quarto enquanto a gente dormia. Talvez não. O que importa é que, depois de tanto sol se pondo, estou pronto para tirar esse amor do bolso e encarar a noite contigo. Daí amanheceres e tudo cíclico, que quando chover também vou estar do teu lado, ardido dos sóis e das bebidas fortes da sua terra.

A sua falta me deixou um pouco tonto... ou talvez tenha sido o rum. Penso que posso estar escrevendo tudo isso em vão. Quiçá minha letra não esteja mais no seu alfabeto e você já não entenda quando balbucio saudades sem condições. Meu sentimento pode estar banido do seu vocabulário, assim como eu, que porventura você não tenha conseguido parar de esquecer desde que fui embora. Esse coração míope de quem não enxerga futuro em nada provavelmente não me tenha perdoado.

Seja como for, como anda você? A imaginação prega peças na gente. Às vezes penso cada coisa...
Seja como for, eu volto logo, me espera. Chego pouquinho depois desta!

Foi numa sala de ECT do Rio de Janeiro que jazia mais uma carta que, em tempos de e-mail e sms, voltou e rebateu nas mãos sujas de carimbo de um funcionário curioso fazendo hora extra. Amassada, atrasada, descuidada, suada, duvidosa com palavras que não paravam de correr.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tarifa: R$ 2,50

¬¬

- Meu protesto contra o preço do transporte municipal sempre foi ir a pé. Mas vou separar a minha onça: amanhã pego o ônibus. Só que falei: se o cara tiver o troco, eu não passo da roleta. Fazer o que? A nota de 50 é bonita, meu jeito cretino de contestar. Além de que, se eu passar a pegar ônibus agora, as empresas vão poder contar que uma pessoa a mais passou a usar o transporte depois do aumento no preço. Deixar de usar por causa de 20 centavos, ninguém vai. E aí vai que elas resolvem apostar na ideia da soma? Se aumentarem a passasgem pra 3 reais, por exemplo, vão ter de inventar uma nota de 60 pra poder castigar mais o trocador por alguma passividade do governo. Então prefiro não pegar ônibus por agora. Não, não acho isso bonito, mas é que não é só a gasolina que anda cara, o álcool também. E, como você sabe, tem que sobrar um trocado pra cerveja no final de semana. Tô andando muito! Baratinho. Levando em conta as geladas todas, faço mais de 30 km/litro. Não tem 1.0 que me peite em questão de economia.
Tava falando do que mesmo? Ah, a passagem. Mas, lembrei, a minha bolsa atrasou, mal tenho nota de 2. Foi mal. Mas pro final de semana já deve ter caído, a bolsa. Chega lá no bar, vou de onça.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cada madrugada quieta e nublada tem o sabor do coração de quem a vive
E se tanta nuvem sufoca, alguma Falta te engasgou. Falta não desce só.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Vitória?



Comemorar a morte de um ser humano me parece um tanto indigesto
Mesmo sendo a morte de um indigesto, ainda me parece um tanto desumano tudo isso.


Talvez eu não seja capaz de entender mesmo o que é isso, afinal eles é que foram afetados.
Essa euforia toda não desce. Nem a história do corpo que ninguém viu.

domingo, 1 de maio de 2011

Primeiro de maio


Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã
Chico

sábado, 30 de abril de 2011

Centésimo cafézinho

- Bom dia.
- Mais ou menos.
- Quê?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- O dia, está mais ou menos.
- Mas foi um desejo, não um comentário.
- A.
- Não se cansa de ser esquisito, né?
- Também te desejo um bom dia.

Matheus, 04/2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

contundentes delicadezas 1

Amaram um amor tão bandido que até suas horas de vida haviam sido furtadas. Arrancadas do sonho de um poeta, estas horas eram assim infindas e belas de causar estranheza aos corações petrificados da selva de pedra que tiveram de desabitar: as autoridades locais declararam como proibido amar fundo demais: atrapalhava no trabalho e em outras bobagens, de forma que precisaram ir morrer em outro lugar, longe daquele povo que já era morto sem saber.

Matheus, 26/04/11

quinta-feira, 21 de abril de 2011

away, away

Fora para o feriadão.
Até mais, pessoal!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Do outro lado do tempo

Um homem e uma mulher que se sorriem e se abraçam sentados num banco olham direto para mim. São simpáticos e definitivamente têm um momento feliz. Atrás deles, há uma criança agachada pegando na terra algo que não sei. Patos e pombos por perto. É um bonito parque no meio da cidade e de uma primavera qualquer.
Olhando essa fotografia parece que tudo foi belo entre nós o tempo todo. Porém não sei precisar a partir de quando, não sei onde a primavera desandou e assim, insensata, à queima roupa, tu me foste um desacato. Se eu soubesse no início - antes de tudo, quando ainda bem jovens - como você me doeria, me dói e ainda doerá em noites como esta, engasgadas de sonhos cortados, perdidos, de feridas clichês jorradas sob o luar. Se apenas suspeitasse, no início, do desacato que tu me serias, mesmo assim teria feito tudo o que fizemos. E sigo fazendo, em solo, agora meio sôfrego para me livrar de correntes de angústia feito um cão que se sufoca na coleira tentando fugir. Tento um tanto, incansável por vezes ou outras, depois me falta o fôlego e me rendo à falta. Falta de alguma droga sua.
E sigo assim: um junkie desesperado sem ter sua dose semanal de heroína. No meu caso, vilã (=P).
A criança na foto, nosso filho Caio, é quem entra no quarto escuro às pressas e ainda com a roupa do trabalho. Me levanta do chão para a cama e serve meus sossegos na forma de comprimidos. Me olha delicado mas precisa sair. Como cresceu rápido.
Aquelas pessoas na foto agora me olham e se riem divertidas, concordando em não serem felizes para sempre, parecendo sem medo deste fim que arrasto agora em compassos incertos. Ah, mas se eu pudesse recomeçar... riria com ainda mais força na fotografia.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

- O desconhecido aproximou-se de mim no saguão do aeroporto e disse: "Pode deixar que carrego sua mala. Também vou viajar." Seis meses depois ele era o meu marido...
As coisas, as pessoas que encontramos pelos bares nas manhãs de segunda são sempre surpresas. Peguei o hábito com uma ex-companheira: toda segunda às 7 me engravato, desço à rua e paro no primeiro bar de esquina que vejo no caminho escolhido. Pego uma mesa que dê para olhar os que ainda não foram embora e também os que passam olhando meio torto pra gente. Só aí peço minha saudosa, revigorante, a minha necessitada dose de toddynho. Então continuo ouvindo.
- ...e tinha de ser assim mesmo. Não se submete o amor à mediocridade do que se julga apropriado ou não.
Era uma mulher de olhos cansados que afirmava, tarimbada pelo tempo, coisas que seus colegas de mesa só compreenderiam em completude tendo o mesmo tempo pelo qual ela havia passado - se compreendessem. Estavam lá apenas tentando preencher um vazio, experimentando o máximo de coisas que lhes fosse possível.
Enquanto suponho a vida alheia no olhar, termino quase despercebido o meu toddynho. Importa que não sei precisar exatamente quando, mas os olhos cansados da mulher bateram de frente com os meus. Medusa. Minha leitura matinal se desvirtuou. Tornei-me órfão do falso brilho. Ela virava a cara e sumiam os olhos. Aí veio a falta dos dois globos oblíquos, esportivos, que amaciam antes de petrificar.
Mudei para a mesa dos olhos sem pedir - não conseguiria falar. As crianças, não vi mais. Ficava horrorizado com eles - os olhos - como se uma faca me invadisse o peito, como se desse um salto ao precipício, completamente nu. E queria mas não queria a faca rasgando mais fundo, o salto mais longo. Viciado na dor dos olhos dela, fiz de tudo para não perdê-los de vista. Bebidas fortes e outras drogas ela oferecia meio mandona e eu aceitava querendo agradar.
Segunda, nove da manhã - quando deveria estar chegando no escritório, disse pela primeira vez vamos lá no meu apartamento ouvir um som. Ela não parava de falar, eu só compreendia o que queriam me dizer os olhos. De alguma forma, descobri ser uma conversa muito mais rica e sincera a que estes costumam ter.
Na vitrola pus um disco do Chico e o teu olhar era de adeus. Estranhei, servi uma taça de vinho e fui rapidamente ao quarto arrmar a cama com o que tinha de melhor lá em casa. Quando voltei para a sala ela havia se atirado da janela.

Amargo

A realidade dói quando abate nossos sonhos muito depressa.
Desacato pra quem espera: sonha noite de lua cheia,
Acorda feridas jorradas, nuançadas sob luzes ausentes.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Velho bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons


Chico Buarque

domingo, 20 de março de 2011

Tempo vai, vento vem

E o vento leva.

Madrugada outra vez. No céu a lua cheia de noites vazias. Corre o tempo em câmera lenta. Passos apertados e, pelos dedos, cinzas de cigarros. Pelos devaneios, cinzas de lembranças. O tempo fecha, ameaça chover e o asfalto não molha. Sua vida tem sido assim: a iminência; não sabia mais de que. A expectativa por uma mudança, uma pessoa, outra fase, não importa. O que tiver de diferente por favor que piorqueissonãofica. Mas o mundo inteiro sabe que fica.
Foi quando começou a chover. Ele estranhou, pois queria mesmo um bocado d’água. Reduziu o passo até parar no meio de uma rua menos movimentada, plena reflexão. Deixou-se encharcar e viu que a água poderia limpar suas mãos das cinzas de um cigarro banal, porém jamais o aliviaria a lembrança - pelo contrário. Dentro da roupa molhada, primeiro vislumbrou-a correndo, divertida sob a chuva durante um carnaval qualquer. Poderia ter sido uma doce recordação, mas - embriagados devaneios - não soube precisar como ela era – cinzas – o que trouxe-lhe certa aflição. Olhando ao redor reconheceu que poderia já ter estado ali com ela. E desconfiou que talvez neste momento alguém a estivesse levando para correr em uma rua como aquela, numa cidade como aquela e com roupas como as suas. Voltou a andar. A chuva parou. Ela voltaria - não a chuva, ela.-? Pela noite, passou a acreditar possuir uma conexão com ela em outro plano e talvez por isso não soubesse definir nem lembrar quase nada além de seus sentimentos. Mas sabia que já estivera mais próximo dela. A reconhecia de alguma memória. Mirada pelo triste céu de São Paulo ou ardida das areias do Nordeste. Foi então que pensou uma solução: juntando as cinzas da lembrança, tentava elaborar a estátua mais bonita para apelidar com o seu nome – se lembrasse nome. Catava com as duas mãos, juntava e colocava monte sobre monte antes de começar a dar formas. Obviamente nem conseguiu terminar os pés. Cinzas são leves e insensíveis demais. Gostam de liberdade e seu maior amigo é o vento. E como ventava nos pensamentos desse cara. Talvez não fosse mesmo bom brincar com uma lembrança meio morta.

Contemplando uma velha amarga angústia, ele traçava a cidade na madrugada, agora afim de uma dose da bebida mais forte que encontrasse, para ajudar a engolir qualquer coisa presa na garganta. Sua sombra desfilando na luz amarela repercutida pelo asfalto molhado. E a vida ardendo entre sonho e realidade. “Afinal, ela existiu?”

Já arrastando o hoje na conta do ontem, vazio, esperava o amanhã trazer uma resposta.


Matheus Marins
20/3/2011

sábado, 12 de março de 2011

Um pedaço do céu

Nesse momento - dizem que cabe aos homens esse gesto, e eles eram mesmo meio antigos - talvez ele tenha pensado em oferecer um cigarro a ela, em perguntar se já tinha visto aquele filme, se queria tomar um café no Ritz, até mesmo como ela se chamava ou alguma outra dessas coisas meio bestas, meio inocentes ou terrivelmente urgentes que se costuma dizer quando um desses rapazes e uma dessas moças ou qualquer outro tipo de pessoa, e são tantos quantas pessoas existem no mundo, encontram-se de repente e por alguma razão, sexual ou não, pouco importa se por alguns minutos ou para sempre, tanto faz, por alguma razão essas pessoas não querem se separar. Mas como ele era mesmo sempre um tanto lento, não perguntou coisa alguma, não fez convite nenhum. Nem ela. Que lenta não era, mas apenas distraída. Ela então sorriu pela terceira vez, e já de costas abanou de leve a mão abrindo os dedos, como Sally Bowles em Cabaret, e continuou a descer a rua Augusta. Ele também sorriu pela terceira vez meio sem jeito como era seu jeito, enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, como Tony Perkins em vários filmes, coçou a barba por fazer e resolveu subir novamente a rua Augusta.

CFA

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Que o sol se pondo esquece alguns raios por entre as nuvens e o resultado é uma cor de ouro que deixa o próprio ouro com uma cor sem graça, e um valor esquecido.

Matheus

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

!

Era uma bela madrugada de verão quando acordei, meu travesseiro encharcado apoiando a cabeça. Mesmo com a luz apagada, podia notar: parte do meu cérebro havia derretido e escorrido por meu ouvido direito, molhando todo o travesseiro dormido sobre a cama. Na hora não senti muita falta. Pendurei o travesseiro no varal e espalhei eucaliptos pelo chão para aproveitar a sauna. A noite seguiu seu rumo natural.

Hoje, passado cerca de 1 mês, suspeito que a parte liquificada dos meus pensamentos correspondia à literária, de forma que doravante acredito ter a inteligencia de um travesseiro (digo um travesseiro ordinário e não o meu, beneficiado) para transcrever esses lirismos que pintam devaneios adentro.
Por precaução, passei a senha do blog para o mesmo e espero que ele faça bom proveito.

Att,
Matheus Marins