domingo, 6 de junho de 2010

Três Músicas

A primeira nota vem do piano de Chopin. Naquela sequência embalada, o de camisa verde se desprende do resto e termina de engolir seu doce. Sente um bem-estar danado, a luz no ambiente é opaca, mas ele vê cores mais brilhantes, muito brilhantes. E pensa que Chopin possuía quinze dedos em casa mão. Extasiado, encontra um coelho branco brincando com as cores no meio da sala.

Mal o pianista termina suas notas, entornam na sala acordes de Just Like Heaven. E o de vermelho se destacou e jorrou pela veia um bocado de heroína. Euforia, calor e conforto o fazem mesmo se sentir Just Like Heaven. O mundo pende por um fio no qual ele dança, sapateia, salta e urra aquilo que lhe apraz aos três ventos que saem do ventilador. O que vem depois não importa, pensa.

O que vem depois é a poesia nos versos de Arnaldo Antunes. É quando o cara de azul se solta para embeber mais um pouco de benzina no pano e sorver outro vale milhas e milhas de viagem de três minutos, é para onde? Paris? Acapulco? Novo México? Marte? Lua? Sol? Sala de estar. Está consumado.

Acaba a última música da playlist, fim. E eu, o de branco, lembro-me que sou a soma daqueles três. Não percebi em quantas partes me despedacei e quantas colorações deixaram escapar entre cada viagem. Sei que restou apenas a mistura de três cores primárias no que era tanta, tanta vida que dava inveja ao arco-íris.

E o de verde está paquerando uma pedra de crack. A vida se esvai contraditoriamente. Minha camisa vai ficando lilás.

Matheus Marins Alvares - 06/06/10

sábado, 5 de junho de 2010

Futuro do Presente

Quando se encontraram, todas as palavras já haviam sido ditas.
O olhar dela penetrou nos olhos dele, passeou, escorreu para a boca, a qual mirou enquanto se achegava.
E a distância diminuía fisicamente, porque em pensamento os dois se faziam um só havia tempos.
E ele caminhava firme em sua direção, aflito, sem saber se ria, se corria para ela como fariam nos filmes ou se deixava a lágrima cair do canto do olho.
E ao ficarem tão próximos, a mão dela não tocou primeiro o braço dele, as cinturas não se achegaram antes que o resto e nem foi uma testa que tocou a outra por antecipação. Ambos e todas as partes do corpo de cada um se conectaram de imediato. E ficaram assim grudados, houve como que uma descarga elétrica que acendeu tanto o brilho nos olhos dela que na atmosfera desses dois a sua luz era mais ofuscante que o sol. Entretanto ele não podia deixar de mirar, seus olhos lacrimejavam e os dois não se controlaram: dois lábios se juntaram e os corpos se encaixavam congruentes. O beijo durou não se sabe se uma semana, um dia, uma hora ou um minuto, mas foi tempo o bastante para traduzir toda a espera pelo acontecido.
Ele avançava nela tal qual um bicho faminto devora sua fruta predileta. E ficava tão bêbado de seu perfume, seu toque, sua saliva, que mesmo tendo calculado todos os gestos anteriormente, às vezes ficava sem ação. Errava na conta, perdia a pose e trôpego ia se ajeitando entre os braços da amada. Inflamaram todo o desejo no melhor beijo que cada um pôde dar. Daqueles que ficam reservados desde sempre, mas a gente nem se dá conta e solta assim sem perceber.
E eles patinaram pelas ruas da cidade que tinha toda sua cor naquele casal. Os transeuntes não compreendiam o que se passava, e os dois subiram deslizando pela parede feito loucos, nas escadas de uma casa, um hotel ou um prédio bem alto.
E o quarto ao qual chegaram ficava tonto de tanta graça, se desequilibrava e jogava os dois para um lado e para o outro. Sem cerimônia ou disfarce, os toques eram sutis porém intensos, na cadência incerta de quem andou muito tempo perdido e agora parece se encontrar aos tantos.
E ele vai escrever nela a glória dos dias mais quistos de duas vidas.
Ela, com seu fogo deixará marcada nele a realidade do sonhado encontro das duas vidas.
Numa outra atmosfera descobre-se finalmente que ela é o sol e ele o planetinha girando tonto em sua órbita, se aproximando a cada volta e brincando com o fogo.
E os acontecimentos subsequentes não cabem em palavras para entrar no relato.

Matheus Marins Alvares - 04/06/2010

*Texto em revisão

quinta-feira, 3 de junho de 2010

moça bonita

De quem é essa prosa leve
de quem deseja bom dia
pede boa noite enquanto se despede

quem é essa moça
sorriso bonito
olhos alegres

mora tão longe
tão perto
do meu coração

Matheus Marins - 03/06/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia de fúria



Queria postar todo dia aqui.
Chegar, sentar na frente do computador e puft! Ter uma história na mão.
Esses computadores que eu passo o dia encarando... gostam mesmo é de dificultar.
Moderno é lápis no papel.
Não precisa apertar botão, só se for lapiseira.
Mas aí não tem que esperar sistema carregar, apertar o F1, aguardar, escutá-lo reclamar da memória ram, não precisa ignorar aquela orquestra toda em desacordo...
No máximo trocar o grafite e desentopir o bico.

Grafite vai pra copa?
E a CPU vai pela janela, já já.

Dia de branco amanhã, hora de dormir.
...hoje tô tão antigo...

Matheus Marins - 01/06/2010

Da gaveta

Quando me perguntar qual é o sentido

Direi que todos os sentidos podem fazer algum

Porque quando meus sentidos aceleram, é você

O fim que se quer justificar, é você

E se esse fim for mesmo justo, será você comigo

Pois, justiça seja feita, o sentido pro meu mundo

É girar em sua órbita

Todas essas frases se direcionam a uma pessoa só

A segunda pessoa do singular.

Singular é o que sinto por você, que sei que ninguém mais sente como sinto

Ninguém me vê como te permito me ver

Singelo.

Quem reclamar que não falei amor

Entrou em desconchavo.

Não entendeu a relação

Com determinada cumplicidade

Essa palavra está nas entrelinhas

Está nas linhas de minhas mãos

Não sabe que seria redundância eu conjugar você com amor em mesmo lugar

Já que toda a conjugação do verbo que aqui faço é indireto para você

Perda de sentido é quando te vejo, mas não a ouço

Leio-te, mas não podes me ver

Ou te vejo, ouço, cheiro mas não posso tocar


Será que senti mesmo alguma coisa?



Matheus Marins Alvares - Vá saber de quando!

domingo, 30 de maio de 2010

Justificam os meios

É outono e ela vai andando pelas ruas, dobra, corre para atravessar, sobe o degrau, paga uma revista, tem pressa para um café rapidinho antes do serviço, está atrasada outra vez, mas a chefe hoje ficou de vir mais tarde.

Ele confere que uma neve fina ameaça brotar lá do alto. Vai caminhando lento. Tem uns passos cansados, que mal o querem mudar de lugar. Atravessa com calma, ouve a buzina do carro ecoar. Coloca um pé sobre a calçada, o outro. Se eleva no degrau com cara de todo-dia. Folheia um livrinho, esconde o jornal e sai sem pagar. Vai entrando na cafeteria. Do balcão, procura a melhor opção, opta pelo simples cafezinho que vê uma moça atraente tomando enquanto apressada folheia umas revistas.

Ela termina o café, tem tempo para dar uma varrida na decoração com os olhos desassossegados, vai mirando até travar o olhar num homem bem vestido lendo jornal com cara cotidiana. Liberta os pensamentos presos, levanta e esbarra talvez sem querer nele. E deixa sua chícara cair, e a porcelana vai se espatifar, e vai dar o maior trabalho para a faxineira.

A chícara cai em cima dele, ele se assusta e derrama café na moça chorando em preto e branco nas páginas do periódico. Respinga um pouco mais no jogador de futebol comemorando, e o líquido preto vai descendo até o seu sobretudo, e a chícara termina seu percurso até o solo, e tudo acontece tão rápido, e ele ainda tão lento. Ele, num arroubo, se sacode e sente a arma escorregar. Olha o chão, lá está. Aquela nove milímetros por cima de toda a porcelana espatifada. Ele só pensa em jogar o sobretudo por cima daquela festa e parece um louco se oferecendo para limpar e pedindo para ninguém chegar perto. Cata tudo e faz da vestimenta uma grande bolsa. Por que ele não usou o jornal?

Ela se desculpa, acusa seu jeito sem jeito, implora, é desculpada mil vezes, ri, percebe ele tentando ser natural sem conseguir, pois usa um sobretudo novo para limpar o chão. Desconfia que esteja inseguro pelo fato de ter se sentido atraído, e ele pode ser tímido. O acha gentil e deixa seu número, convidando para sair mais tarde, depois do serviço. E ele precisava mesmo de uma fachada para tanta alegoria disfarçada.

Ele perdoa, ri sem graça, sua frio, perdoa mil vezes, dá um riso amarelo, tenta manter a compostura com os cacos brancos e o volume de ferro pesado dentro daquele embrulo tosco. Se demonstra vulnerável e a verdade é que ela é mais uma a qual deseja mas não consegue tentar nada, transbordado por outros objetivos mais imediatos. Porém percebe utilidade, e sabe que não é só o seu coração traidor que pede atitude.


(...) E uma pessoa é enganada.


Ela vai tentando girar a chave para sair, as duas mãos cobertas de sangue. Não tem muita força, a bolsa é pesada, e a porta está emperrada, o sangue escorre por suas mãos para o metal da chave, goteja no piso e se espalha feito uma louça a se espatifar.

Ele está desnorteado, sangra mais que ela, vai correndo o apartamento a procurar. Cadê? Precisa daquele dinheiro na bolsa para pagar a cirurgia da mãe de seus filhos. Retirar uns três caroços que colocaram tudo de ponta-cabeça.

Matheus Marins Alvares - 30/05/2010

sábado, 29 de maio de 2010

Rockz


Gosto dessa banda.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Tentativa de roteiro 1

Ele: - Isso é por causa do Romário, não é?
Ela: - Claro que não! É por você, apenas.
- Queria tanto que você ficasse...
- Paulo, a situação ficou insuportável
- Sei que errei feio, meu bem. Garanto que não acontece de novo. A partir de agora vamos conversar mais, deixar as coisas claras...
(Silêncio)
Ele: Passo até no seu trabalho no horário de almoço.
Ela: Nem pense em voltar no meu trabalho! Todos já estão desconfiados, me olham torto e tudo! (Exaltada)
Ele: -E quem é que se importa? Você já está querendo dar do pé de lá e ir para Nevada de vez mesmo...
- Um dia eu volto, quem sabe. E aí? O pessoal todo vai lembrar que meu marido me traiu com o meu chefe?!
- Não fala assim...
- Por quanto tempo me escondeu isso, homem? Todos os 8 anos que estivemos juntos?
- Sempre tive receio de sua reação. Mas juro, com seu chefe foi a única vez! Fora isso, há anos que não acontecia.
- Sei...
- Verdade! Verdade!
- Você deveria buscar o que te faz feliz.
- É exatamente o que estou fazendo (soluçante).
- Achei que fosse aceitar melhor.
- No início foi mais fácil... Aí pensei nas manhãs sem ter a quem acordar, o telefone sem utilidade, as noites sem você e seu chá de camomila...
- Desapego, Paulo! Quem errou foi você. Vamos dar um tempo e, quem sabe um dia volto e te faço uma visita.
- Quanta frieza...
(O ônibus com direção a Nevada desponta na entrada da rodoviária, ela se apressa).
Ela: -Vê se ao menos me ajuda a levar essas malas.
(O ônibus de viagem estaciona, a porta se abre, passageiros desembarcam e é a vez dela entrar).
Ele: -Me liga quando chegar.
(guardando as malas).
Ele: - Não esqueça o remédio de enjôo.
(primeiro degrau)
Ele: - Deixei uma lembran...
(fecha-se a porta do ônibus, ela nem se despediu. Ele fica só, na rodoviária, assiste o ônibus em retirada e volta para o apartamento).

CENA 2

Uma semana depois, Paulo no apartamento ligando para a mãe dela.

Ele: - Alô? Ângela? Oi! Sou eu, o Paulo; faz uma semana que sua filha foi embora e não consigo qualquer contato, estou preocupado; ocupada?! Não pod...
- Tum, Tum, Tum. (Ângela bateu o telefone).
(Paulo fica preocupado e resolve investigar. Não consegue nada no antigo trabalho dela, que aparenta estar fechando as portas).

CENA 3

Dois meses depois, Paulo encontra uma conta no apartamento que dá para um endereço em Nevada.

Ele: - Deus do céu!
(gagueja qualquer coisa)
Ele: -É minha chance de rever meu amor. Vou pra lá amanhã mesmo! (falando sozinho)
(Paulo vai para a cama e não consegue dormir. Levanta, deixa o apartamento bagunçado e parte para a rodoviária).

CENA 4

Na rodoviária e, depois, dentro do ônibus

(Paulo está com o bilhete e embarca. A viagem é longa: 16 horas)
15 horas depois:
Rádio local: - Seguros e previdência UNILESCO: A sua melhor opção!... (UNILESCO é o nome da empresa onde ela trabalhava).
Ele: - Então era isso?! A empresa toda mudou para Nevada e ela não contou? Deve continuar trabalhando lá...
Um passageiro: - Quero dormir, cale a boca!

CENA 5

Paulo chega, toma um táxi até o endereço indicado na conta e, ao chegar, vê uma grande casa. Aproxima-se, analisa, vê um varal na lateral, onde Poe ver roupas que são dela e Paulo tem certeza de ter acertado seu paradeiro.
Paulo toca a campainha (barulho de duas pessoas dentro da casa, ouve a voz dela).
Ela: - Sua vez de atender, amor!
A outra pessoa: - A essa hora da manhã... (responde uma voz familiar a Paulo).
A porta abre, é Romário, o chefe dela, vestindo pijamas.

Matheus Marins Alvares - 14/05/2010

*Faltou um diálogo do início que perdi. Se alguém achar que fez falta, avise.
**Não reparar na minha habilidade para escolher nomes.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Primeiro de Maio - Chico Buarque

Hoje a cidade está parada, e ele apressa a caminhada para acordar a namorada logo ali. E vai sorrindo, vai aflito para mostrar cheio de si que hoje ele é senhor das suas mãos e das ferramentas.

Quando a sirene não habita, ela acorda mais bonita. Sua pele é sua chita, seu fustão. E, bem ou mal, é o seu veludo, é o tafetá que deus lhe deu, que é bendito fruto do suor do trabalho que é só seu.

Hoje eles hão de consagrar o dia inteiro para se amar. Tanto ele, o artesão, faz dentro dela sua oficina. E ela, tecelã, vai fiar nas malhas do seu ventre o homem de amanhã.

Mais um texto que gosto muito. Esse é música, e de uma simplicidade que fascina. :}

sábado, 22 de maio de 2010

Se lágrima fosse de pedra, eu choraria.

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia :
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
Mas eu, Boca, como semrpe perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado
Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra

Paulinho da Viola - Bebadosamba

Primeira vez que posto aqui um texto que não é meu. E esse vale a pena!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Post improvisado

Um exercício sobre escrever quase sem pensar.

Joaquina vive em uma vila distante da cidade, onde não existe internet, telefone e sequer luz. A vila está localizada no norte da Dinamarca, todos os habitantes se conhecem e convivem da forma que podem, nem sempre harmoniosamente, no ponto de vista deles.
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Certo dia, durante uma guerra entre a Dinamarca e a Holanda, porque o governante do segundo país chamou o do primeiro país de bobo:
Joaquina caminhava entre a mata tranquila, sentindo o vento que soprava de todos os lados e ouvindo aqui e ali um barulho de bomba. Joaquina não tinha medo de ser atingida, diferente de todos os outros moradores daquela vila.
Enquanto voltava para casa carregando flores, nossa personagem principal se deparou com um homem sujo e ferido. Era um soldado do exército holandês. Joaquina, sempre bondosa, tomou o homem pelo braço e desceu de volta para a vila ao lado dele. O levou para sua casa e tratou de tratá-lo. Processo que perdurou por 10 dias de assistência e comidinha na boquinha. Quando o soldado estava curado, e ainda sem dizer palavra, a guerra já havia terminado. É segredo que Joaquina não queria que o soldado fosse embora. Após tê-lo alimentado, vestido, tratado como um bebê, havia se apegado de diversas formas.
O soldado, que estava muito melhor na casa da moçoila, um dia resolveu sair vila afora, e achou o ambiente muito agradável! A maioria dos moradores o dizia algo que ele não entendia ao passar, mas eram sorridentes...

cansei. blerg!

Matheus Marins
17/05/2010

domingo, 16 de maio de 2010

Vida que segue


Um dia depois do mega evento cheio de artistas e caravanas protestando, ou não, em uma Cinelândia ensopada, acerca dessa coisa toda dos royalties de petróleo. Estava voltando do estágio e tive que parar com a câmera para registrar.

Particularmente, amo o centro da cidade do Rio de Janeiro, dentre outras coisas, por essa característica de cidade grande, onde todo mundo vai correndo, correndo, como que automaticamente, movido por algo mais que só o dinheiro. Talvez por um compromisso em fazer a cidade parecer séria, mesmo que instável e beirando sempre ao caos.

Andar diariamente em meio e junto a esses trabalhadores, mendigos, empresários, jornaleiros, jornalistas, putas, engenheiros, pivetes, drogados, caretas, gringos, vagabundos, vendedores, empreiteiros,... Sempre me faz pensar bastante.

E isso é bom. ;)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Distâncias

Entreolharam-se ao se cruzarem na descida do largo e, dez passos adiante, ele olhou para trás buscando fitá-la. Dez passos adiante, ela olhou para trás na direção dele. A vinte passos de distância, os dois trocaram um olhar desacreditado de ter sido retribuído. Logo o contato visual cedeu e os dois se afastaram numa velocidade de dois passos por passo. Os pensamentos na direção oposta, indo um de encontro ao outro com avidez pelas suas verdades. A distância entre os pensamentos diminuía. Entre os corpos, aumentava constante. A distância que separava o pensamento dos dois foi extinguindo, extinguindo, até que cessou de haver. A dos corpos foi aumentando, aumentando, até o infinito de nunca mais. Os pensamentos se juntaram e formaram um só, ficando à média distância entre cada corpo que lhe pertencia. Os corpos ficaram separados eternamente, sem complemento e sem pensamento, lamentando não terem feito qualquer coisa à distância certa.

Matheus Marins Alvares
07/05/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Um tempo que jamais vou esquecer

Escrever me permite recordar, reavivar, pegar o passado descolorido pelas camadas de tempo e retocar na memória a lembrança do que partiu, mas que ficou aqui guardado a tantas chaves quanto a porta de um coração pode conter. Por isso, durante uma madrugada tão profusa, cheia de si, me sento à escrivaninha e acendo o velho lampião que sempre com sua luz acompanhou a graça que vinha de você nas noites banhadas a músicas, histórias, risos e nossos corpos a desenhar em nuances na parede os moldes de um amor sincero.
Escrevo-lhe desconfiado que não vá ler se eu deixar esta carta com flores em cima de uma caixa de mármore. Mas o dia do seu aniversário chegou e resolvi me mudar, em pensamento, para a data da última vez que sopramos juntos a sua velinha, que só contava “27”: um tempo que jamais vou esquecer.
Nos meus olhos posso ver: Carne seca desfiada com aipim, salada, bolo de chocolate. Preparei tudo para você que vinha do trabalho exausta. Vou deixar escondido e fazer que estou dormindo. Você sentará no sofá, retirará o salto, esticará os pés castigados pela correria no serviço, se acomodará e ligará a tevê sem prestar muita atenção no que faz. 5 minutos depois você desliga o aparelho, possessa por não haver na telinha coisa que preste. Daí permanece outros 5 minutos na frente da geladeira e, ainda agitada, termina a jarra de mate que preparei na semana passada. Vai tomar um banho, escovar os dentes e cair do meu lado. Eu nem me movo e sequer respiro. Você não fala comigo e dorme triste, sabendo que a idade vai bater de novo. Quando percebo que silenciou, levanto da cama e arrumo tudo. Retiro a carne seca do forno, pego o bolo e a salada no vizinho, arrumo mesa, pratos, vinho e o mais importante: a vela. Ligo todos os despertadores para meia noite, coloco um chapéu engraçado e espero o dia seguinte. Quando começa a barulheira que te acorda, você salta da cama e estou na cozinha, onde te espero com os reloginhos atacados. Entra descabelada e com cara de ódio, expressão que muda numa fração de segundo, no que fica surpresa com tudo. Diz que não sabe o que dizer, está feliz. Estamos.
A noite segue como esperado: comida, bebida, risos, música, beijos, histórias, vizinhos reclamando. Acendo a vela e cantamos uma marchinha de comemoração. Você pede para apagá-la junto. Faço um pedido: que essa noite se repita todos os anos.
Dormimos juntos no sofá e, no dia seguinte, você me coloca a culpa por ter servido tanto vinho, que trabalhou de ressaca e nem conseguiu segurar um chope com a turma para comemorar. Acho graça.
Volto para o dia de hoje, 1 ano depois do seu dia. Vou preparar os mesmos pratos e tentar repetir a noite, ver se meu desejo se realiza: Carne seca desfiada com aipim, salada, bolo de chocolate. Mas no recheio só tem saudade. A garganta deu nó e a carne seca não desce. Errei na pimenta e faltou você reclamando estar a ponto de cuspir fogo. Tudo desandando e vou me deitar. A luz do velho lampião pela primeira vez vacila em sair, trabalhando em saudade.
“Parabéns pra você
Nessa data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida.
Pois cheia de vida continuará sempre na minha lembrança.
Tudo o que eu queria era sua presença, mas o seguimento da história se provou mais poderoso do que qualquer pretensioso querer.
Receba os beijos de quem tanto te ama.”
Parabéns, Cecília dos anjos!

Encontro Marcado

Está na hora, já posso senti-lo chegar.

Mal o ponteiro das horas encontra o número sete e eu arrumo minhas coisas de volta para casa. Despeço-me do faxineiro e do ator coadjuvante que ainda estão no set de filmagem e parto para tomar o ônibus que cruza lentamente e sem paciência a cidade. Sinto a tensão no rosto de cada operário, é o fim de mais um dia na cidade grande. Vão tornar à casa, rever seu par, seus filhos, ou apenas tomar um banho e jantar sozinhos no conjugado que tem o aluguel quase sempre atrasado, rotina essa que cumpro com fidelidade. Depois do jantar, ligo o computador e me sinto só. Abro o programa de chat e, pontual, revejo meus amigos virtuais como se nosso encontro já estivesse marcado desde a noite anterior. A mulher que apanha do marido quando este chega bêbado no apartamento, o jogador de RPG , a menina que tira a roupa na frente da webcam sem a menor censura e a moça que tecla comigo há umas duas semana mas que já é até íntima. Todos estão ali, prontos para trocar ideias como qualquer sujeito o faria no bar após o trabalho. É a moça que conheço há duas semanas quem vem falar comigo ligeira, logo que me vê logado. Diz que me conhece há pouco tempo, mas se sente bem de conversar. Confidencia que anda traindo o noivo com um eletricista que vai à sua casa há duas semanas para consertar a fiação do chuveiro sem conseguir. Conto do meu dia no serviço, filmando um novo curta que deve estrear pelo fim do ano. Digo ainda que andam preocupados com o ator principal, que cheira uma carreira após a outra sem se preocupar com a sua carreira verdadeira. Ela ri da piada de humor negro enquanto enxoto os mosquitos que atazanam o verão paulista, e ao mesmo tempo em que o vizinho ao lado deve estar acendendo um cigarro enquanto xinga o juiz no canal do futebol, impropérios que a parede me conta todas as vezes.

Minha companheira de chat se chama Manuela e não mora muito longe daqui. Ainda não conta com cabelos brancos nem rugas. Trabalha como recepcionista numa loja de perfumes e sonha conhecer o mundo. Diz que se identifica muito comigo e que quer me conhecer pessoalmente. Deve estar cansada do eletricista.

Horas depois, bebo um copo de leite e vou deitar. Não consigo dormir, o sono já foi embora, quiçá nem chegou. A imagem da mulher do chat não sai da minha cabeça e, quando me dou conta, voltei para o computador mas ela já não está. Converso com o garoto do RPG, que está feliz por ter evoluído no jogo – e ganhou uns quilos a mais quase sem perceber. Quando estou conformado para voltar à cama, Manuela reaparece no chat. Trato de não perder tempo e digo a ela tudo que me vem à telha. Marcamos de nos encontrar um dia depois, num restaurante no bairro dela. Não pensei que fosse ser tão fácil, durmo tranquilo.

No dia seguinte, peço para sair mais cedo no trabalho, digo que tenho compromisso sério e prometo compensar a hora chegando mais cedo para a edição quando acabarem as filmagens. Tomo banho no camarim, coloco minha roupa mais bonita e um sapato de couro semi-novo que o antigo inquilino esqueceu quando deixou o conjugado. As intenções de Manuela me pareceram claras na nossa última conversa e a noite promete ser proveitosa. Passo o perfume que peguei emprestado com o ator principal. Não podia chegar lá cheirando a colônia Sendas. Tomo um taxi para escapar do suor incrustado na pele e nas roupas dos velhos trabalhadores da lotação. Chego adiantado onde marcamos e resolvo esperar do lado de fora, um restaurante chamado Canto do Boi. Vejo que muitas pessoas moram nas redondezas. Suas casas se revezam com comércios, geralmente bares. Não conhecia aquele lugar, Rua José Pereira. Me senti incompatível, posto que não era um canto bem iluminado e os transeuntes tampouco andavam de forma muito apresentável. Já estava ansioso pelo encontro e, Manuela, atrasada há dez minutos. Achei que não fosse aparecer, ponderei por ir de volta para casa e para minha rotina. Foi quando meus olhos esbarraram em seu rosto, mais bonito que nas fotos, espiando o relógio no pulso e a se aproximar indecisa se era eu ou não. Sorri confirmando minha identidade, no que fui retribuído vendo a cova no sorriso a qual tanto reparei em fotografias. Ela era morena, cabelo curto, um metro e setenta mais ou menos. Chegando perto, me deu um abraço sincero e caloroso, propôs que pegássemos logo uma mesa. Me senti satisfeito.

Ela Quis se sentar nos fundos, num canto reservado. Aceitei. Passava sua mão na minha e dizia estar contente. Conversamos sobre nada e de repente sua língua estava dentro de minha boca, nossos pratos sequer haviam chegado. Entrei no clima, e estávamos bebendo um vinho barato, que era o único que era servido. A comida chegou, estava à altura da quentinha dos peões carregadores lá do serviço, e o papo já fluía de forma que eu podia me abrir sem remorso. Contei mais dos meus pais bem sucedidos e da carreira que resolvi tomar, de minha irmã mais velha que se casou e de como eu gostava de trabalhar no estúdio.

Sem terminar o frango, ela levanta e diz que vai no banheiro, no que me dou conta novamente do mundo ao nosso redor. O restaurante está vazio e o cara do outro lado do balcão me espia de esguelha enquanto lava a louça com cara de quem cheirou e não gostou. O lugar já está fechado e concluo que somos os últimos clientes. Começo a pensar que poderei propor algo mais a ela após pagar a conta. Manuela se demora longos 5 minutos e, mal a vejo de volta, recebo uma porrada na cabeça. Caio no chão de bruços e não custo a sentir sangue escorrendo com pressa atrás da minha orelha. Lá de baixo posso ver. São três homens armados junto dela. Vestindo chinelos, bermudas em farrapos e camisetas furadas. Uma toda preta, outra com um escudo de time do lado esquerdo do peito, e uma terceira com a cara de um deputado estampada. Tento alcançar a porta e já começo a enxergar embaçado quando vejo a cabeça do deputado me carregando para dentro de um carro. Manuela não havia marcado encontro apenas comigo, mas também com outros três rapazes, e na mesma hora e lugar.

Quando recupero a lucidez, me vejo numa casa habitada apenas por mim e outros dois homens que não sei dizer se são os mesmos do dia anterior, posto que trajam outras vestimentas. Tento me espreguiçar, mas minhas mãos estão amarradas aos meus pés de forma grotesca, não sobrando nenhum espaço entre esses membros. A posição que sou forçado a fazer me projeta para frente, me colocando de cara com o chão, sem poder sair dali, como uma tartaruga de ponta cabeça. Tenho a boca lacrada também, então apenas posso ouvir. Estão tentando localizar meus pais, imagino que por ter dito à Manuela que tinham dinheiro. Se não conseguirem, disseram que a minha irmã vai servir. Vejo o sol nascer duas vezes na mesma posição, sem água e nem comida. Um homem magro com cicatriz no rosto aparece, me senta numa cadeira e me interroga enquanto um outro está armado, pronto para alojar uma bala dentro dos meus pensamentos. O magro se desespera por não conseguir o contato com nenhum conhecido meu. Tortura-me sem pudor e estou dopado demais para conseguir informar onde trabalho exatamente, coisa que não cheguei a dizer à Manuela, não sei pelo quê.

Ouço que não longe dali outros sequestros acontecem pela voz de criminosos confabulando entre si e fazendo perguntas aos seus reféns, sempre ameaçadoramente e falando ao celular quase que o tempo inteiro. O homem da cicatriz comenta com o outro que está tudo decidido, solta minhas mãos dos meus pés e me guia até um carro. Já não tenho forças para tentar uma fuga aos pulos e me sinto muito cansado. Minhas pálpebras sozinhas pesam mais que meu corpo inteiro, mas chego a ver as outras habitações e muito mato em nosso entorno. No banco de trás, acompanhado de um homem branco e gordo que porta uma pistola, sou levado até um lugar cheio de árvores que fica poucos minutos longe da casa. Não tomam o cuidado de me vendarem os olhos e, no caminho, descubro uma placa que diz “Mirante José Amorim - 5 km”

No que o carro para, sou forçado a deixar o veículo com mãos me guiando pelo pescoço. Paramos poucos metros adiante do carro e, de súbito, sinto como se o magrelo da cicatriz me abraçasse, e logo em seguida recebo uma faca em meu abdômen, que se retira furiosa. “Não serviu pra nada. Pé rapado! Manuela precisa prestar mais atenção com seus pares.” Sinto o chão batendo na minha cabeça e o barulho de motor logo fica distante. Os homens foram embora e, mesmo que minha boca não estivesse lacrada, não conseguiria dizer uma palavra. Sinto algo pulando dentro do meu peito, em frequência perfeita. Vejo muito sangue descer de minhas entranhas, e a batida que vem de mim vai ficando sem vontade de ser. Estou mais cansado, vejo alguém se aproximar. É Manuela, mas não sei se ela está ali, seu olhar parece dizer que lamenta que o encontro que marcamos tenha acabado dessa maneira, finalmente meu peito passa a tocar batida nenhuma e aceito estar morrendo quando um filme finalmente começa a passar toda a minha vida diante de dois olhos indecisos.

Trate de contar sobre Manuela e venha, por favor, buscar esse corpo já sem ânimo e vida nenhuma...


Volto e parece que estive sempre sonhando. O papel à minha frente conta a história de um homem que foi seqüestrado e morreu por um encontro às cegas, seu espírito quis contato comigo e deixou um recado em psicografia direta. Apesar de ter acabado de acordar, me sinto esgotado pelo último encontro e preciso voltar a dormir.

Matheus Marins Alvares

domingo, 21 de março de 2010

Vingança

Permaneceu por indeterminado tempo insólito à porta, ponderando numa cadência pontual acerca dos beijos que o conquistaram, mas também o apunhalaram. Os mesmos. Entre o paraíso e o inferno, a terra.
Após romper com as indagações que lhe comportavam, atravessou com poucas de suas coisas o vácuo que cabia entre a porta de seu apartamento e o porteiro eletrônico do prédio e saiu andando como se soubesse aonde ia. Dividia o lugar com sua mulher há anos. Ela pagava a maior parte das contas, passando muito de seu tempo fora e fazendo agora se sabe o que.
Seu amargor começou a se tornar insuportável. Ele, que aprendera a não levantar expectativas sobre nada, se via decepcionado por ter criado tantos planos que agora padeciam medíocres, patéticos, antiquados aos pés de um mundo frio, seco e desumano, a cada vez mais individualista. Se sentiu fraco como os seus planos e seguiu caminho até uma loja de armas no Centro. Queria vingança. Precisava acabar com aquilo de vez.
Lá chegando, deu uma boa analisada no local e pediu ao dono que buscasse a faca mais afiada do lugar. A indignação já lhe transbordava olhos e pele. Mal podia esperar para acertar com seu grande rival o que o mesmo lhe havia causado. As demais pessoas na loja o olhavam com estranheza, uma senhora comprando um canivete suíço e um homem mostrando ao filho pistolas de ar razoavelmente potentes logo desabitaram do recinto. Sua figura trêmula de desespero destacava-se facilmente e, mesmo assim, o comerciante não hesitou em colocar nas mãos do homem o material cortante, detalhando imediatamente suas principais qualidades e a sofisticação de suas curvas.
Ao segurar a faca, o traído não conteve a imediata necessidade. Testou o produto partindo com o objeto agudo, cortante, visceral, atravessou sua própria carne e coração em precisão cirúrgica e poucos segundos. Sentiu enfim a vingança. Saboreou com gosto o prato frio enfiado garganta abaixo em plena Av. Rio Branco e por fim caiu satisfeito, molhado de suor e de sangue. Conseguira finalmente desvencilhar-se de seu pior inimigo, o portador de suas alegrias, angústias e sentimentos afins. Não poderia perdoar o que fizera a si mesmo, se colocando aos pés de tal senhora sem escrúpulos, puta.
O golpe desferido pelo mesmo personagem rendeu capa e matéria nos principais jornais. Ele não quis terra. E o que é que um coração não pode conquistar?

Matheus Marins Alvares

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

De quando em quando

Quando sou pouco
Afasto a solidão
Te lendo em versos moucos
Escondo minha paixão

Quando sou sincero
Me pego em suas mãos
Qualquer cigano pode ler
Eu nas suas marcas, querendo morrer

Quando vazio
Te imagino e transbordo nesse amor
Quando cheio
Esgoto em você minhas mágoas de dor

Quando sou hora
Quem me dera você comigo a cada volta
Quando sou produto
Não sei até quando vai o meu prazo antes de um substituto

Quando fico louco
Abro um sorriso frouxo, fecho meus olhos e vejo você
Quando esparso
Procuro em meu corpo qualquer resquício de um beijo derramado

Quando te quero
Você não me quer, não adianta se espero
Quando sou seu
Eu sou seu e você é de você

Quando multiplico
Dobro minhas cartas
Aumento o desejo
Quero enviar, mas não posso te indignar

Quando somo
Junto a saudade com a paixão
Adiciono vontade e estou roto na solidão

Quando é subtração
Tiro os 4 cantos da cidade a te buscar
Vejo o amor num caixão
Durmo e enfim consigo não sonhar

Quando desisto
Você me olha nos olhos e me reincida a te querer.
De volta à cidade,
Não quero ver outro dia amanhecer.

Matheus Marins Alvares

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Pra Registrar

Fui pruma terra distante
Terra da cachaça, chapéu de couro e águas calmas
De tudo vi. No caminho até lá foram mil instantes
Da violência do mundo até paisagens de se bater palmas

Lá chegando me deparei com chapéu e chimarrão
Misturas do meu Brasil louco, grande, em pouco espaço, tanto.
Sotaque do nordeste em nego com cara de alemão
Gente que desconhece o samba, fotografei com caixa de papelão

No riacho me banhei
E no quilombo, por uma beleza me arrepiei.
Doei e recebi
Cultura, calor, amor, sorriso. Me encantei.

Dancei, cantei, bebi, aprendi, dividi meu desvario
Troquei as pernas, juntei os passos
Nunca antes imaginara. Pessoas tão loucas de tão diferentes espaços.
Não caí, mas levantei
Esqueci
Caí mas não senti
Gostei de ti e não menti
Vi, vivi, aplaudi
Ao seu lado dormi, ao seu lado sorri
Flutuei e lá do alto olhei
O sol e a ponta, a árvore e o pau
Chegando por aqui, saudoso fiquei
Pelos cantos, encanto. Senti a brisa e me alegrei
Algo aconteceu no meu coração
Enfim confessei
Dias passarão, esses ficarão
Pra quem perdeu, não há perdão
Por isso tudo, sou muito louco de paixão.

Matheus Marins

sábado, 6 de junho de 2009

Palavras

Ponho-me a escrever, com mão ou máquina vejo palavras que se encontram, se combinam, dialogam, criam. Fazem mágica em seu movimento. Na imaginação, um milagre. Sinto-me parado a voar no mirante da cidade milagrosa de palavras, todo um mapa na minha mente embaralhada, ilimitada. Com palavras e letras sinto que posso chegar a qualquer lugar.

Junto a verde e a fruta e enxergo pêra, pinha, limão
Troco a fruta pela chão e acho gramado
Coloco a vermelho na preto e tenho paixão
Junto a branco com a negro e vejo miscigenação

Troco termos e mudo o assunto. De frase em frase reproduzo o que me dá vontade
mas não esqueço e assumo: tem coisa que palavra não consegue passar.

A palavra saudade só existe no português, mas na língua que for não faltam gestos pra podê-la expressar. Não há quem a explique, não há quem não a entenda.
O amor pode ser expresso em qualquer língua, mas de ich liebe dich até ya tebya liubliu, nunca vi alguém não preferir um gesto sincero.

Verdade que gestos também são limitados, mas completados pela palavra e vice versa.
É que todos são limitados, mas quando se unem, podem muito mais, alcançam muito mais.
Verbos, atitudes, sujeitos, pessoas, conectivos, tempo, predicados, objetos diretos e indiretos me levando direta e indiretamente onde eu quiser chegar.

Disso não posso me privar
No universo de palavras crio planetas, pessoas, histórias.
Vivo o que não vivo.
O que não vale é não deixar
A imaginação te levar.

Matheus Marins

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Morena Sem Nome

Veja a morena, beleza de se admirar.
Esbelta, elegante, olhos azuis combinando com o mar.
A tristeza em seu rosto anuncia
O seu programa para o fim da tarde, quando surge a lua.

Ah, ela faz a alegria do porto.
Anda rebolando com simplicidade
Simples assim, fica com qualquer garoto,
Só por necessidade.

O seu problema não é solidão
Talvez seja falta de paixão
Já que tanto lhe maltratam sem compaixão
Ela faz de tudo, só por um tostão (Quem dá mais? Quem dá mais?)

Roda sua bolsa no posto
Rola com qualquer moço
É contra sua vontade
Ser humilhada assim sem piedade

Quem lhe dera o cafetão escutar sua vontade
Antes de jogar-lhe num caminhão para fazerem-lhe toda a maldade.
É a sua profissão. (Quem dá mais? Quem dá mais?)

Quisera seu coração poder bater com tranquilidade e paz
Vendo seu corpo ser para um só rapaz
Essa não foi sua sina
Deus não atendeu ao seu pedido
Então toda noite vem o diabo e a ilumina.

Sob a luz vermelha
Ela encanta Emanuel, Miguel, Rafael.
Mãe de três filhas
Que não sabe se são de Gabriel, Jesiel ou Daniel.

Ela ainda sonha com um amor de verdade
Entre as amigas de trabalho, seu sonho é piada
Sabe que o seu trabalho não tem a menor dignidade
Toda noite, a chamam de safada, cachorra, mal criada.

Vende seu corpo pro Brasil
Por esse destino, jamais pediu.
Mas a pátria mãe gentil
A fez crescer longe de onde se divertem o Sílvio Santos e Raul Gil.

Ela sofre de carência
Carência capital
Tem que fazer tudo no esquema
Para conquistar qualquer real. (Quem dá mais? Quem dá mais?)

A morena é quem dá mais
Dá calor, vende amor, morre por dentro
Esquece seu sentimento
Ignora seu desalento quando deita na cama para não descansar.


Matheus Marins Alvares